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Aqueles velhos negros americanos cantando bem a dor de cotovelo!

Quando na presidência da WEA brasileira, André Midani - agora vice-presidente mundial da Warner Records, em Nova Iorque - preocupou-se em lançar uma série de álbuns de blues, agrupados em coleções. A coleção "The Legacy of the Blues", teve seqüência há quase um ano com os volumes 4, 5 e 6, que trouxeram registros notáveis de três figuras históricas: Bukka White (Booker T. Washington White, Houston, Massachussetes, 21/11/1906 - Memphis, Tennesse, 26/02/1977), cantor, guitarrista, pianista e executante de harmonia, começou sua carreira ainda criança e nos anos 20 já brilhava em Saint Louis, começando a gravar na Victor. Além da música, foi profissional do boxe e do baseball e sua vida comporta todo um romance. De registros feitos em Memphis, em 1963, foram extraídos 11 temas, nos quais mostra não só sua versatilidade sonora, mas também capacidade no piano na faixa "Drunk Man Blues". Snooks Eaglin (Fird Eaglin, 21/01/1936, New Orleans), guitarrista, cantor e compositor, cego desde a infância, é autor de "Lucille", um dos maiores êxitos de Little Richard. Seus discos são raros mesmo nos Estados Unidos e a seleção editada pela WEA trouxe gravações feitas para o Sonet Records em junho de 1971, gravadas em New Orleans. "Big" Joe Williams (Joseph Goreed, Cardele, 12/12/1918), é entre os bluesmen da serie da WEA, o mais conhecido. Afinal, tem uma tradição de cantor de jazz que o faz ser um dos nomes mais respeitados no universo da música negra desde os anos 30, quando começou cantando em Chicago com Jimmie Noone e logo passando a trabalhar nas big bands de Coleman Hawkins e Lionel Hampton. Mas só faria suas primeiras gravações quando Count Basie o convidou, em setembro de 1950, a gravar "Every Day" (I Have the Blues). Em 1956, faria dueto com Ella Fitzgerald em "Party Blues" e continuaria a emprestar seu talento a inúmeras outras formações. Sua voz magnífica, daquelas de encher (positivamente) qualquer auditório, pode ser apreciada em 12 faixas gravadas em 1972, ainda em plena forma e selecionadas para o volume 6 desta série "The Legacy of the Blues". A Boa Imagem do Jazz - O Bravo Jonas Silva, com sua pequena mas atuante Imagem, também tem beliscado positivamente o mercado de blues, com edições que agora chegam ao CD. Em seu catálogo, estão três gravações de bluesmen igualmente históricas, indispensáveis de serem melhor conhecidas por quem se interessar pelo gênero: Big Bill Broonzy, Lightnin Hoplins e o legendário Leadbelly. Big Bill Broonzy (William Lee Conley Broonzy, 1893-1958) cresceu em Arkansas e, nos anos 20, como todos os cantadores de blues, subia o Mississipi em direção a Chicago onde teve que dar duro: antes de se tornar cantor, foi empregado em fazendas e só nos anos 30 começaria a ter melhores oportunidades, trabalhando com Memphis Slim e Crepple Clarence Loffon, entre outros. Historicamente, em 1951, faria aquele que é considerado o seu melhor álbum: "Big Bill's Blue" (Columbia), no qual falava sobre as músicas que aprendeu com sua mãe, uma escrava que morreu em 1957, aos 102 anos de idade. Em 1955, escreveu uma autobiografia, "Big Bill Blues", que é considerada um repertório de histórias desta música de tantas lendas. Um pouco da arte de Broonzy pode ser apreciada nas 11 faixas que compõe o elepê lançado pela Imagem. Sam "Lightin" Hopkins (Centerville, Texas, 15/03/1912) é considerado o último dos chamados "Cantores de estradas". Passou a maior parte de sua vida em andanças pelos Estados Unidos, recolhendo canções, de temas folclóricos, por ele adaptadas num estilo muito especial - o que não o impediu de trabalhar com alguns grupos e chegar mesmo a se apresentar no Carnegie Hall em 1960. Quando trabalhava com o pianista Wilson "Thunder" Smith - também adotou um apelido artístico bem atmosférico - "Lightnin". Com um de seus irmãos, Joel (1904-1964) chegou a fazer algumas gravações em filmes e especiais de televisão, como "The Blues" (62), "The Sun's Gonna Shine" (67), e, em 1972, Martin Ritt (1920-1990) o convidou para participar da trilha sonora de "Lágrimas de Esperança" (Sounder), um dos mais belos filmes integracionistas feitos pelo cinema americano. Leadbelly é o pseudônimo artístico de Hiddie William Ledbetter (Moonrgsport, Louisiania, 20/01/1889 - New York, 06/12/1949), outro gigante do mundo do blues: cantor, compositor, múltiplo instrumentista. Crescendo no Texas, onde trabalhou na lavoura e tendo sido um acordeonista de estilo Cajun (ver referência no início desta matéria) ainda em criança, aos 15 anos já era casado e pai (e depois teve sucessivas mulheres). Sua vida, como a de tantos outros bluemen, foi repleta de altos e baixos, intercalando fases musicais com até atividades criminosas (em fevereiro de 1930, na Lousiania, foi condenado a 10 anos de prisão por "assalto com intenção de assassinato"). Na prisão, o pesquisador de folclore John Alan Lomax gravou sua voz para registros da Biblioteca do Congresso, e, quando saiu, foi trabalhar como motorista dos Lomax, o que deu novo rumo a sua carreira - e o levaria a trabalhar com nomes notáveis do folk music como Guthrie, Sonny Terry, Seeger e Burl Ives (além de ator, um notável cantor). Uma mínima parte de sua obra é conhecida entre nós, o que torna "The Legendary Leadbelly" incluída na série Arquivo da Imagem - à disposição também em CD - uma preciosidade documental.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Música
4
24/03/1991

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