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Em novembro, chegam "As Bruxas de Salém"

Antes de viajar, domingo, para a Europa, em suas férias de inverno, o advogado Constantino Viaro, superintendente da Fundação Teatro Guaíra, definiu com o secretário René Dotti as principais produções para o final de administração - na ocupação dos espaços do teatro até março de 1991, quando haverá a mudança de guarda cultural. Entre os bons projetos acertados está o da produção pelo Teatro de Comédia do Paraná de um espetáculo que deve devolver ao elenco oficial do Estado a dignidade e dimensão que atingiu em seus anos de ouro, nos governos Ney Braga e Paulo Pimentel. Será uma grande montagem de um dos mais importantes textos do teatro contemporâneo: "As Bruxas de Salém", de Arthur Miller. Encenada em 1953, "The Crucible" não só foi a peça que comprovaria o talento de um dos maiores dramaturgos americanos, como soou como o segundo protesto, simbólico e cultural, em relação ao Macartismo que alcançava sua temperatura máxima naqueles anos da Guerra Fria (o primeiro havia sido, um ano antes, o western-psicológico-político "Matar ou Morrer / High Noon", de Fred Zinnerman, a disposição em vídeo nas locadoras). Reportando-se a um acontecimento da inquisição ocorrida num pequeno povoado de Massachussets, em 1692, "As Bruxas de Salém" foi a forma com que Arthur Miller, então no vigor de seus 38 anos, encontrou para denunciar a brutalidade com que o Comitê de Atividades Anti-Americanas, criado e presidido pelo senador Joseph Raymond McCarthy (1908-1957), começava a perseguir intelectuais, políticos e todas as pessoas supostamente comunistas. Arthur Miller, que estreou em 1947, com "All My Sons" ("Todos Eram Meus Filhos") e que com "A Morte do Caixeiro Viajante", dois anos depois, ganharia o Pulitzer, sentia os perigos do MacCarthismo e denunciou-o, de forma indireta, através de uma história de feitiçaria, ambientada no interior dos Estados Unidos, no final do século XVII. Sua coerência política o levaria a ser perseguido pelo Macartismo, que contou em sua peça autobiográfica "Depois da Queda / After the Fall", 1954, e em suas recentes memórias ("Arthur Miller - uma Vida", 1987, edição no Brasil da Guanabara, 556 páginas). Outras peças como "Panorama Visto da Ponte" (A View from the Bridge, 1955), além de contos e artigos, voltariam a mostrar o intelectual digno, preocupado sempre em denunciar a intolerância. Em 1958, Miller autorizou a filmagem de sua peça, que por razões políticas (o Macartismo ainda rosnava em Hollywood) foi produzida na França, com roteiro de Jean Paul Sartre (1905-1980) e reunindo no elenco o casal Ivens Montand e Simone Signoret (1921-1985) - que pertenciam na época, ao Partido Comunista Francês, mais Lylene Demongeot e Raymond Rouleau, o diretor. O filme, em preto e branco, boicotado nos Estados Unidos, teve grande apoio da crítica e em Curitiba foi exibido no Cine Arlequim (Largo Frederico Faria de Oliveira), somente em 1961. Mesmo com toda a perseguição macartista, a primeira montagem de "As Bruxas de Salém", nos Estados Unidos, há 37 anos, obteve quatro Tony (o Oscar do teatro americano) - melhor peça, autor, espetáculo (entregue ao corajoso produtor Kermit Bevongarden) e atriz coadjuvante (Beatrice Straight, então com 37 anos). No mesmo ano, o Tony de melhor diretor ia para Joshua Logan por "Picnic", de William Inge). No Brasil, a peça até hoje teve apenas uma grande montagem, acontecida há exatamente 30 anos, com direção de Antunes Filho, em São Paulo, em cujo elenco, entre outros, estavam Miriam Mehler e, como uma das meninas endemoniadas, a estreante Glória Menezes. Num momento em que o grande tema denunciado por Miller em "The Crucible" está mais atual do que nunca - a intolerância política, a delação e mesmo um renascimento de bruxaria - o texto, em seu vigor, merece encenações na Europa e Estados Unidos. Alan Arkin, 56 anos, ator, diretor, estreou há pouco uma montagem da peça que está sendo levada a várias cidades americanas antes de estrear na Broadway. Na Alemanha, de onde retornou há poucas semanas, Marcelo Marchioro assistiu duas montagens de "Hexenjagd" - o título da peça na língua de Goethe - em Berlim e Frankfurt, "nesta uma encenação maravilhosa", diz Marchioro. Assim, convencido mais do que nunca da importância do teatro de Miller, Marchioro retomou um projeto que há anos desejava realizar: montar "As Bruxas de Salém". O secretário René Dotti, que como jurista e defensor dos Direitos Humanos, desde 1953 acompanha a importância do teatro de Miller, entendeu que não haveria melhor texto para ser a grande produção do TCP. Assim, a encenação de "Perfídia", de Aziz Bajur - peça premiada no I Concurso de Textos Maurício Távora, terá sua montagem transferida para o início do ano (encerrando as programações culturais da atual administração), enquanto que "As Bruxas de Salém" estréia em novembro, a tempo de uma boa temporada em Curitiba - a ser estendida também a outras cidades, inclusive Rio-São Paulo entre janeiro/fevereiro. Para tanto, no elenco a ser convocado estarão dois nomes famosos nacionalmente. Embora atualmente mergulhado na direção de "O Barbeiro de Sevilha" (estréia dia 14 de agosto, Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto), Marcelo já começou a fazer a tradução de "The Crucible", inclusive buscando a primeira edição do texto, com uma parte que seria posteriormente suprimida. Detalhes da produção ainda aguardando algum tempo, mas uma coisa é certa: possivelmente desde 1964, quando Cláudio Corrêa e Castro aqui dirigiu para o TCP a corajosa "A Vida Impressa em Dólar" de Clioffor Odetts (1906-1963), o Teatro de Comédia do Paraná não apresenta um espetáculo com tamanha importância política, social e histórica. LEGENDA FOTO - Arthur Miller: denúncia do Macartismo em "As Bruxas de Salém", que será encenada no Guaíra em novembro.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
3
10/07/1990

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