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Aramis

José Maurício, o cantor que ama (e ajuda) a MPB

Entre as pessoas que mais tem auxiliado a música brasileira nestes últimos anos destaca-se um jovem executivo, que vem canalizando todo seu tempo livre - e muitos recursos - para que nossos talentos encontrem um prestigiamento cada vez mais difícil. Chama-se José Maurício Machline, é vice-presidente de comunicação do grupo Sharp, ama a música desde a infância e, tem mostrado como uma empresa pode manter um grande evento cultural. Idealizou há seis anos uma grande premiação para os melhores do disco, espalhados em mais de 40 categorias, a exemplo do Grammy - que promovido desde 1958 pela Academia de Artes e Ciências Fonográficas dos Estados Unidos está para a indústria fonográfica o que Oscar representa para a indústria do cinema. Pela seriedade da promoção, a representatividade dos nomes que, inteligentemente, buscou para apoiá-lo na coordenação deste evento - entre os quais Mário Henrique Simonsen, Dorival Caymmi, maestro Julio Medalha, produtor Zuza Homem de Mello, entre outros - e a formação de um júri de 25 especialistas - entre jornalistas, artistas, produtores musicais, críticos etc. (E do qual, nos honramos de fazer parte desde a primeira edição), o Prêmio Sharp da Música tem sua credibilidade e importância cada vez mais valorizada. O grande júri, após ouvir todos os discos de música brasileira pré-selecionados para o projeto, atribui notas, de um a dez, que são analisados por computador para a elaboração das cinco finalistas, cujos nomes são divulgados alguns dias antes da festa de entrega dos prêmios. Por sistema de pontuação, há os escolhidos em cada categoria que somente são anunciados em festa de gala da música brasileira, realizada anualmente no auditório do Hotel Nacional (Barra da Tijuca, RJ), exceto em 1989, ano em que o homenageado foi Dorival Caymmi, e que aconteceu no golden room do Copacabana Palace. No primeiro ano, o homenageado foi Vinícius de Moraes (1913-1980), no ano seguinte (1988), Maysa (1933-1977) e no ano passado, Elizeth Cardoso, escolhida antes de sua morte ocorrida em 7 de maio de 1990. Para 1992 - referente as premiações do ano de 1991 - a homenagem será para Luiz Gonzaga. O PRODUTOR, O ARTISTA Ao lado de sua visão empresarial e de animador cultural, José Maurício Machline é também um artista. Cantor de boa voz, sabendo valorizar o repertório romântico que interpreta é sempre requisitado para mostrar seu talento em ambientes que freqüenta. Apenas por insistência de amigos, por duas vezes concordou em gravar discos. A primeira vez, há 10 anos, quando criou uma etiqueta, a Pointer (*), pela qual produziu mais de 20 discos da melhor qualidade, hoje collector's itens na carreira de seus artistas - entre os quais Leny Andrade, uma de suas boas amigas. No ano passado, apenas como brinde para amigos, José Maurício reuniu alguns instrumentistas amigos - como o violonista Natan Marques, pianista Jather Garotti, violoncelista Renato Lemos, percussionistas Ary Dias e Luiz Macedo para o programar os teclados e como resultado fez um elepê simples, afetivo que só não entrou na relação das dez melhores produções alternativas porque só nos chegou em janeiro. Modesto, sem pretensões - poderia, pelo seu relacionamento, fazer o disco em marca profissional e convocar nomes famosos para textos de encarte, Zé Maurício preferiu apenas gravar um registro espontâneo, como se estivesse cantando em sua casa. Assim, juntou um repertório de standards e à sua interpretação juntaram-se vozes de muitos dos amigos e artistas que, merecidamente, o estimam e admiram pela sua personalidade fascinante, sempre aberto à projetos culturais. Tendo já provado sua competência dirigindo belos shows musicais - como um sucesso que projetou a suave Jane Duboc interpretando músicas famosas do cinema - Zé Maurício, agora mostra seu jeito cordial e afetivo de (en)cantar com um repertório que abre com "Je Ne Me Quitte Pas" (Jacques Brel) e "Senza Fine" (Giono Paoli) em contracanto com Lucinha Lins, prossegue com "Angélica" (Miltinho-Chico Buarque), com a participação especial de Jane Duboc, emendando com outra musa do universo buarqueano ("Carolina" - desta vez com a participação de Elba Ramalho) e dando ao acordeonista Dominguinhos um solo incrível na belíssima "Saigon" (Paulo Cesar Feital/Cláudio Cartier) e encerrando a face "A" do disco com "Se o Amor Pudesse" uma das mais belas letras (e pouco conhecidas que Vinícius de Moraes criou para belíssimas harmonias de Marilia Medalha) (**), aqui com a participação de Dudu Moraes. No lado dois, Zé Maurício abre novamente com um clássico romântico dos anos 50 - "Cry Me a River" (Arthur Hamilton), que foi o grande prefixo da hoje esquecida (e desconhecida das novas gerações) Julie London, "Acorda Amor", que Chico Buarque compôs na época da repressão com o pseudônimo de Julinho de Adelaide ganhou uma versão extremamente bem humorada com a participação do artista transformista Paulette. Já Eduardo Araújo é que foi o convidado em outra parceria de Chico e Francis Hime, "Paraná" e Giovana faz ouvir sua forte voz em "Nenem" (Maurício Tapajós). Buscando uma das mais perfeitas parcerias de Geraldo Pereira (1918-1955) e Nelson Trigueiro, "Sem Compromisso", Zé Maurício divide esta faixa com a marrom Alcione. Do samba ao tango, com "Cambalache" (J. S. Discepolo) em que, vejam só, é Chico Anísio que tem a participação especial. Encerrando, "Tal Mãe, Tal Filha" - uma das primeiras parcerias de Aldir Blanc e João Bosco, com a participação do parceiro Paulo Emílio (já falecido) e que tem outra surpresa na gravação: a presença de Thales Pan Chacon, conhecido ator. Arranjos ajustados ao clima de cada música, simples e cordial eis um exemplo agradável de música para se ouvir com imenso prazer - mostrando mais uma faceta deste múltiplo Machline. Só tem um problema: modestamente, Zé Maurício não pretende colocar o disco no circuito comercial, mantendo-se apenas para seus amigos. Notas (*) Pointer, nome da etiqueta que criou, foi uma homenagem a outra de suas paixões, já que é um dos maiores criadores de cães de raça do mundo, membro internacional de júris. (**) Em 1972 pela RGE, Marilia Medalha, (nascida em Niterói-RJ, em 25/7/44) gravou um belíssimo álbum com Vinícius de Moraes, com quem (mais Toquinho e o Trio Mocotó) havia trabalhado entre 1970/72, inaugurando inclusive o Teatro do Paiol, em 27 de dezembro de 1971 - data cujos 20 anos, transcorridos há pouco mais de um mês foi totalmente ignorado pela incompetente presidência da Fundação Cultural de Curitiba. LEGENDA FOTO - José Maurício: um cantor romântico num elepê de tiragem especial.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Nenhum
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02/02/1992
Hoje consegui a capa e contracapa deste disco, depois de muito tempo procurando por ela... Mas nada de achar este antigo álbum do Zé para comprar, que dificuldade...

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