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Marcelo mergulha para conhecer pai de Alice

Quando decidiu partir para a encenação da peça "Do Outro Lado da Paixão" (Teatro do SESI, até o dia 9 de agosto, 21 horas), o encenador-autor Marcelo Marchioro, 36 anos, falou clara e francamente aos que decidiram participar do projeto: um espetáculo não convencional, difícil e com risco de desagradar o público que busca, tradicionalmente, o teatro como simples entretenimento. Todos toparam. E mais: entrosaram-se em horas e horas de ensaios para uma peça que terá, a princípio, apenas 10 apresentações, com apenas 120 lugares por noite - já que a inovação começa no próprio espaço cênico: o público não ficará na platéia, mas no próprio palco - "dentro" praticamente do que os artistas estão criando. Quem conhece Marcelo Marchioro sabe de sua seriedade. Difícil, diria mesmo, impossível, encontrar alguém, no Paraná, mais bem informado do que ele em termos de teatro contemporâneo. Desde sua adolescência, é um devorador de textos, ensaios, biografias e tudo o mais que se relaciona com o teatro - extrapolando também para o cinema e a música, inclusive a clássica. Três ou quatro viagens ao Exterior, sempre por sua conta, o fizeram assistir mais de 200 espetáculos, num tour-de-force inacreditável, chegando, muitas vezes, a ver 5 a 6 peças num mesmo dia. Em Londres ou Nova Iorque, nunca se assustou em mergulhar em espetáculos experimentais de até 10 ou 12 horas de duração. Engenheiro químico de formação acadêmica, ex-funcionário do BADEP, Marcelo foi um dos mais competentes diretores-de-arte e programação da Fundação Teatro Guaíra, ali desenvolvendo durante o segundo governo Ney Braga uma administração irrepreensível, e que mesmo seus mais fidagais inimigos não conseguem minimizar. Foi a época em que o Ballet Guaíra se consolidou e que espetáculos da dimensão de "Jogos de Dança" (Edú Lobo) e "O Grande Circo Místico" (Chico Buarque / Edú Lobo / Naum Alves de Souza) deram ao grupo oficial de danças do Paraná uma projeção que hoje Triencheiras tenta manter - mesmo sem um novo espetáculo da mesma dimensão. Mais do que um executivo e bem sucedido administrador, Marcelo é um homem de criação. Enquanto não parte para uma longa permanência na Europa ou Estados Unidos, mergulha em projetos que, mesmo sem resultados financeiros, representam o que de raro tem surgido de renovação em nossos palcos - cada vez mais mediocrizados pela incompetência da maioria dos ditos "diretores", buscando apenas o sucesso fácil. Após a tradução de um difícil texto de Albert Inaurato ("Gemini"), sucesso na temporada paulista há 5 anos passados, Marcelo fez algumas direções em Curitiba - do surrealismo de Ionesco ("A Cantora Careca") a dois textos, em francês, "La Nuite de L'Absurde" e "Classe Terminale", este um dos dez melhores espetáculos do ano passado. Anteriormente, também havia dirigido "Alegre Desbum", "A Dama de Copas e o Rei de Cuba", para o teatro, e a experiência de "Como 3 e 3 são 7", baseado livremente em Gabriel Garcia Marquez, para ballet. "Do Outro Lado da Paixão" é uma síntese de anos de pesquisas em bibliografia que passa de 40 títulos sobre a vida e a obra do inglês Charles L. Dogson - ou, como ficou famoso, Lewis Carroll, o autor de um clássico que mais do que literatura infantil, é uma obra que espelha contradições e múltiplas dimensões para diferentes leituras: "Alice no País das Maravilhas". Marcelo, que desenvolveu todo o trabalho em colaboração com João Marcelo Soares (responsável também pela montagem musical), tem dito e repetido que não fez espetáculo biográfico sobre Lewis Carroll. "A proposta básica do texto e do espetáculo é que se analise e se sinta a emoção deste ser humano, deste homem que viveu no século passado com todas as decorrências daquela época, onde a Rainha Vitória dominava a Inglaterra, e onde o moralismo, puritanismo e repressão eram as principais tônicas em relação ao comportamento dos ingleses.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
42
02/08/1987

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