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Aramis

Miles Davis, com a força de seus melhores momentos

"Na escola de música a gente aprende apenas como aprender. Como saber interpretar a música dos outros. Isso não basta. É quando se sai do conservatório que tudo começa. É então que cada um deve aprender seu jeito de aprender". (Miles Davis) Há um Olimpo musical no qual vivem artistas que têm uma mágica de constante juventude criativa. Sem apelarem para modismos - mas sabendo estar atentos para o trem que transporta as sensibilidades dos homens de todo o mundo - sabem acompanhar o passo da História e manterem-se com uma dourada adolescência artística. Um exemplo é Miles Dewey Davis Jr. (Alton, 25/5/1926), pistonista, compositor, arranjador - sem favor, uma das figuras mais fortes do jazz a partir dos anos 40. Só o fato de seu último álbum, "Tutu" - o primeiro que faz na Warner, após 31 anos ligado à CBS - nos ter chegado aos ouvidos após a edição da página dos melhores lançamentos fonográficos do ano passado, impediu-nos de incluir este disco como o melhor de jazz lançado no Brasil em 1986. Realmente, Davis, como uma resposta aos críticos que o vinham acusando de diluído, modernoso e fracassado em suas últimas realizações, retoma aquele trabalho notável do jazz moderno, da essência do cool como mostrou em obras maravilhosas como "The Birth of Blue", "Porgy and Bess", "Quiet Nights", "On Silent Way" e "Sketches of Spain" - estes dois, suas obras-primas, com arranjos de Gil Evans - talvez o maestro-músico com quem melhor se afinizou. Por uma (feliz) coincidência, ao mesmo tempo que temos o Miles Davis-86 , com este "Tutu", há a possibilidade de compará-lo com um dos trabalhos mais explosivos de sua carreira, o "Bitches Brew", álbum duplo gravado, ao vivo, em 1969, e no qual, dentro da transformação que marcava a música contemporânea na época, Davis não se assustou com a parafernália eletrônica e eletrificou sua banda, ao mesmo tempo que incluía um percussionista recém-chegado aos Estados Unidos, o catarina-curitibano Airto Guimorvan Moreira. "Bitches Brew", tal como o disco seguinte - "Live at the Fillmore East" (gravado no hoje desaparecido teatro-templo musical de San Francisco) foram álbuns de ruptura em sua carreira, separando-o de uma fase anterior, com raízes no bebop dos anos 40. Inéditos até o ano passado, estes álbuns chegam agora ao Brasil - inicialmente com "Bitches Brew" incluído no pacote que a CBS produziu exclusivamente para a cadeia de lojas Breno Rossi, infelizmente esgotado em poucas semanas - mas com uma prometida reedição. O IRASCÍVEL MILES - Os curitibanos deixaram de ter a raríssima chance de aplaudir ao vivo Miles Davis, em agosto do ano passado, devido à timidez da Fundação Teatro Guaíra. Acomodados como simples gerentes de espaços culturais, os diretores da Fundação (que, agora, serão substituídos) - jamais se preocupam em informarem-se do que é importante que se apresente na cidade e só acontecem grandes concertos quando os empresários procuram a burocrática repartição. Com Miles Davis aconteceu o pior: o produtor de sua temporada no Brasil encontrou tanto desinteresse (leia-se ignorância) em relação à proposta que havia feito a alegações de que "não há data vaga", que acabou tirando Curitiba do roteiro. O resultado é que Miles apresentou-se no Rio e São Paulo e só ficamos vendo um especial que gravou para a Manchete, com direção de Gregório Rubin e apresentação do jornalista Arnaldo Souteiro, um dos mais bem informados críticos de jazz do Brasil. Se Miles Davis tivesse vindo a Curitiba, também aqui não faria concessões. Ele não gosta de dar entrevistas, é irascível e costuma tocar de costas para o público. Pretensioso, antipático, é um artista a ser curtido à distância. Mas todos seus pecados cessam quando mostra sua genialidade de instrumentista e compositor, dando ao instrumento uma dimensão única. Isto observa-se nas faixas de "Tutu", título com que homenageia o bispo anglicano da África do Sul, Desmond Tutu, 55 anos, prêmio Nobel da Paz-1984, primeiro negro a ocupar o cargo de Secretário Geral do Conselho Sul Africano das Igrejas. Impressionado com o trabalho de Tutu, Miles - também um negro orgulhoso de sua cor - o homenageou neste álbum, dando assim sua contribuição a que os fãs também voltem sua atenção ao trabalho que Desmond Tutu desenvolve, como figura unificadora da campanha para resolver o problema da segregação racial na África do Sul. Durante a temporada de Davis no Brasil - coincidindo com a passagem do jovem (e igualmente talentoso) Wynton Marsalis para o Free Jazz Festival, a imprensa tentou estabelecer comparações entre os dois músicos. Uma bobagem, pois se Marsalis é um renovador com excelente criatividade, Davis tem o seu estilo único. Como tão bem acentuou Antônio Carlos Miguel ("Jornal da Tarde", 5/12/86), aos 60 anos, ele é ainda o mais importante músico do jazz em atividade. Seu trompete, sem qualquer outro recurso além da surdina, passeia neste "Tutu" por oito faixas, envolvido por sofisticado tratamento eletrônico, num trabalho que sintetiza o melhor do jazz nos últimos 30 anos. Bebop, cool, fusion e funk podem ser percebidos na instigante massa sonora do álbum. Nos últimos anos, após uma paralisação voluntária, Miles Davis tem assustado os cultores tradicionais do jazz com trabalhos sempre inovadores, mas fugindo do estilo tradicional dos anos 50. Assim foi com "The Man With The Horn", "Star People", "Decoy" e, especialmente, no recente "You are..." - este um disco caminhando para uma linguagem pop, e que realmente quase balançou a admiração de tantos milesnianos fanáticos. Felizmente, em "Tutu" faz o disco mais cool desde a década de 50. A produção ficou por conta de Tommy Lipuma e Marcus Miller, com exceção da faixa "Backyard Ritual" (Lipuma/George Duke, um pianista de valor mas pasteurizado em discutíveis caminhos do rock/funk, poderia até comprometer esta faixa, mas felizmente Davis supera a tudo). Outra participação importante é do jovem baixista Marcus Miller, que além de ficar com a co-produção também assina a maioria das músicas e dos arranjos, tocando diversos instrumentos. Ligado a Miles há anos, acompanhando-o em "The Man With The Horn" (81) e "Star People" (83), Davis (que há 3 anos fez um lp-solo, aqui lançado pela WEA) é um arranjador-instrumentista-compositor ao qual se pode dar um crédito de confiança. Se nos anos 60, era Airto Moreira que renovava a percussão nos trabalhos de Davis, agora é outro brasileiro, Paulinho da Costa, que dá o molho rítmico - no caso deste elepê nas faixas "Tutu", "Portia", "Splatch" e "Backyard Ritual". Em "Tomaas" o baterista e percussionista é Omar Hakim (integrante da banda de Sting). Um destaque: o violonista polonês Michael Urbaniak em "Don't Lose Your Mind" (Urbaniak é ex-marido de Ursula, extraordinária cantora-scatt, até hoje com apenas um elepê editado no Brasil). "Tutu" é um álbum que se ouve com uma imensa satisfação, mostrando o vigor de um criador de rara voltagem que aos 60 anos, recuperado das drogas que quase o mataram, mostra-se otimista e que, há pouco, quando indagado se continuará tocando trompete dentro de 10 anos, disse: - "Yeah. O que me impediria? Gosto demais de música. Enquanto ela aparecer na minha cabeça. Melodias, passagens, calipsos, cantos batistas... sempre passagens, mesmo quando estou comendo ou quando falo com alguém, como agora, agorinha mesmo..." Ainda bem que assim falou Davis!
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Música
7
18/01/1987

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