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Aramis

Os gaiteiros do Sul

Um dos instrumentos mais injustiçados - e, ao mesmo tempo, mais populares - é o acordeon. Desconheço qualquer estudo de profundidade a respeito de grandes acordeonistas, a força da música nesta forma instrumental que, com diferentes variantes, tem exemplos característicos em diferentes países do mundo. No Brasil mesmo, o acordeon que se ouve no Nordeste é diferente, muitas vezes até em concepção, daquele que fortalece 80% da música gaúcha, assim como ambos são diversos dos acordeons que se escutam no Centro Oeste. Mesmo no Rio Grande do Sul, há diferenças entre os chamados acordeonistas da zona serrana para os executantes do instrumento na área dos Pampas, estes com maiores influências dos instrumentistas e folclore argentino-uruguaio. Já em vários eventos nativistas, um dos mais populares acordeonistas da chamada zona serrana, Odemar Bertussi, 65 anos, 26 elepês gravados, gaúcho bom de fala e teorização, expôs idéias a respeito, ele que com o irmão Ademar, ganha a vida no acordeon. Foi preciso que um jovem executante da chamada gaita-de-ponto (uma das variantes do acordeon), Renatinho Borghetti (Porto Alegre, 23/7/1963) vendesse 150 mil cópias de um modesto disco (cuja produção não havia chegado nem a Cz$ 1 mi), para que a própria Globo passasse a valorizar este talento de comunicação com instrumento dos mais simples. Hoje Borghettinho é um superstar gaúcho, que, nos aos 24 anos, após dois elepês, tem agenda das mais carregadas e pensa em projetos maiores, inclusive de apresentações com sinfônicas - como, aliás, já ensaiou na noite de 11/12/86, por ocasião da abertura do Acorde Brasileiro (seminário em defesa da música regional, Tramandaí, RS). Se Borghettinho é hoje um nome nacional - e importante! - popular junto ao público jovem, sem abrir mão de suas raízes, há centenas de outros acordeonistas, só no Rio Grande do Sul, que também desfrutam de públicos seguros, que vão desde audaciosas experiências de fazer arranjos para este instrumento de temas clássicos, como Odenair Bertussi em seu mais recente álbum (Copacabana, 1986), até os ritmos mais populares, os vanerões que tanto agradam os segmentos humildes dos gaúchos - naquele Estado ou espalhados por Brasil afora e que no Paraná tem um mercado fértil, que o diga o Edgar Bueno, dono da maior loja de discos do Interior, em Cascavel, que vende milhares de cópias dos discos de artistas nativistas. Um experiente record-man, Nilo Odone Sehn, associado ao seu genro, o talentoso Alex Hohenberger, 29 anos, acordeonista, compositor, cantor e líder do afinado grupo Caverá, criaram há dois anos uma etiqueta - a "Discoteca" (nome da rede de lojas de discos de Nilo em Porto Alegre), pela qual já saíram até agora meia centena de elepês, das quais pelo menos vinte são de acordeonistas gaúchos. Por exemplo, com toda sua simplicidade, o simpático Porca Velha (Elio Xavier, Lagoa Vermelha, 1940) já tem dois elepês gravados, no primeiro trazendo temas próprios ao lado de composições de maios fôlego como "Los Ejes de Mi Carrera", um dos mais belos temas do argentino Ataualpa Yupanqui (que há 20 anos mora em Paris). Compositor, acordeonista e sobretudo animador cultural, responsável pelo Musicanto, em Santa Rosa - que disputa com o Califórnia a glória de ser o maior evento nativista do Sul, Luiz Carlos Borges já gravou na Polygram vários discos mas agora está também na Discoteca, por onde sai o seu "Solo Livre". Esta produção coordenada por Alex Hohenberger traz Borges em oito composições próprias, uma delas - "Dom Pedro Raimundo", homenageando um dos maiores nomes da música gaúcha (Praia da Casa Grande, Vila de Imauruí, 29/6/1906) - Lagoa, RJ, 1973), que apesar de catarinense de nascimento foi um dos primeiros acordeonistas e autores a divulgar através de gravações e de seu trabalho na Rádio Nacional a música regional (1). Apesar de basicamente ser um álbum demonstrativo dos recursos de Borges como acordeonista, a participação de bons instrumentistas ao violão (Oscar Soares), violão (Juliano Trindade), baixo (Paulo Pereira), Clóvis Correia (guitarra) e Carlos Peres (percussão) engrandecem algumas faixas, especialmente "Fogo Simbólico" e "Trem Expresso", esta de autoria de Raul Barbosa. Uma mostra coletiva do talento dos acordeonistas gaúchos está no álbum "Melhores Gaiteiros do Sul", um dos discos de melhor vendagem entre as produções de Nilo Odone Sehn - e que acaba de ter agora um segundo volume. Unindo a fonogramas de artistas de sua própria etiqueta - como Edson Dutra, Alex, Gaúcho da Fronteira, Edu, Nelcy Vargas, Itajaiba Mattana, Aldayr Vargas, Porca Velha e Borges, há também a inclusão dos artistas contratados por outras gravadoras. Assim, Borghetti interpreta "Sem Vergonha" (Walmir Pinheiro/Edson Dutra), Albino Manique homenageia "Cristina", Os Bertussi trazem "A Mais Bela Flor", Moraezinho é um dos mais populares artistas gaúchos, interpreta o "Tinindo Esporas". Duas outras produções da Discoteca também trazem diferentes intérpretes - incluindo desta vez não só acordeonistas, mas grupos vocais e instrumentais. Assim "Fandango no Galpão" traz o mesmo Porca Velha com seu "Lagoa Vermelha", Seu Dudu em "Atrevimento de 8 Baixos", Nelcy Vargas em "Tá Danado Tchê", ao solo de grupos como "Tico-Tico no Fubá" do trio Iedo Silva-Xará-Tia Eva - apropriando-se assim do título da mais famosa composição de Zequinha de Abreu: o grupo Minuano ("Aporreado"), Os Cobras do Teclado ("Tabaco da Vovó"), Os Monarcas do Ponche Verde ("Tição de Fogo"), Os Garotos do Fandango ("Vanerão do Tio Zé") e Os Caibates ("Morena da Perna Grossa"). "Fogo de Chão" é outra produção na mesma linha, com Porca Velha ("Gaitaço"), Ademar Silva ("Velho Amigo"), Índio Sapé ("Levanta Gaúcha"), Alex ("Fandango do Cantor"), ao lado de grupos como Os Serranos ("Bugio da Fronteira"), Os Guapos (Pialo de Amor"), Os Mirins ("Prá Mais de Metro"), além do grande e admirável intérprete missioneiro Cenair Maicá, mostrando uma das mais belas músicas de outro missioneiro, famoso pelo seu pioneirismo e mau gênio - mas inegável talento: Noel Guarany. OS GAÚCHOS DE AIRTOM Não foi apenas Nilo Sehn que, com sua sensibilidade de empresário fonográfico, sentiu as possibilidades da música gaúcha em termos de valorização dos acordeonistas. Airtom dos Anjos, 50 anos, o estimado "Patinete", mais de 300 produções, hoje diretor da Continental para a Região Sul, tem buscado artistas regionais com boas possibilidades de vendas. Assim a Continental abriga o comunicativo Moraezinho, que em "Cantiga de Paz" une a um acordeon bem ritmado também letras picarescas como em "Amigo do Peito", "Desventuras do Zé", "Petiço Emprestado", ou enaltecendo regionalismo como "Catarinense", "São Pedro do Sul", "Minha Tapera" e "Saudades do Rio Grande". Na letra de "Amigo do Peito", Moraezinho diz que não é cantor, mas que também "não sou soutien/mas sou amigo do peito". Outro acordeonista que fica entre o humor e o instrumental é João Campeiro ("Estampas do Campeiro"), que com "O Velho queria mas não podia", divertido vanerão em parceria com Moraezinho tem sido dos mais programados nas AMs do Rio Grande do Sul. João Campeiro grava vanerões, xotes, rancheiras, valsas e até uma curiosa milonga de Airton Pimentel ("Vaquenão"). Os Milongueiros, trio instrumental-vocal gaúcho, dos mais requisitados para bailes na zona fronteira e que tem Leonir como compositor, em "Gaitita Baguaia" desfila uma nova seleção de chamantes, vanerões, chamarritas e até toadas tão do agrado do público gaúcho. BADONEON, O PRIMO Instrumento lembrado como complemento do tango - e que tem em Astor Piazzolla o seu maior intérprete - o bandoneon é hoje também integrado à música nativista da região fronteiriça. É um dos melhores executantes deste instrumento. Chaloy Jara (Salvador Jara "Chaloy", Posadas, Missiones, Argentina, 1/3/1931), reside em Porto Alegre, profissional dos mais requisitados em bailes, shows e eventos nativistas. Numa produção destinada tanto ao mercado nacional como a Argentina e Uruguai, Chaloy Jara ("E su bandoneon de oro", Discoteca), gravou oito composições próprias, ao lado de standards de agrado fácil como a valsa "Desde El Alma" (Rosita Mello), o chaminé "Canto Alegretense" (Antônio/Euclides Fagundes) e "El Cabresto" (Ramon Mendes). Uma prova de que nem só para tango serve um bandoneon bem executado. Nota (1) Na coleção "Esses Gaúchos", a Tchê! Editora lançou há alguns meses um livro sobre "Pedro Raymundo", de Vitor Minas e Israel Lopes (79 páginas, Cz$ 40,00, pedidos na Avenida Capivari, 1141, P. Alegre).
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Música
7
15/03/1987
NO FILME "K9 UM POLICIAL BOM PRA CACHORRO" TEM UM SOLO DE GAITA, VCS PODERIAN ME DIZER O NOME DESTA BENDITA MUSICA. A TENTATIVA DE UMA REPRODUÇÃO SERIA ASSIM "PARAN PAMPA BO BO YAER BOBO YAER...

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