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Sabino vem escolher o slogan para poupança

MENOS de dois meses depois de ter vindo a Curitiba para lançar seu novo livro - "O Gato Sou Eu" (Editora Record, já em 7a edição), Fernando Sabino estará, amanhã, novamente na cidade. Desta vez a convite do Bamerindus, para presidir a comissão que escolherá o melhor slogan de estímulo à poupança. Numa original promoção, o Bamerindus organizou um concurso interno, entre seus funcionários, para escolher um slogan destinado à sua caderneta de poupança. Mais de sete mil frases - cada funcionário podia inscrever várias - tornam difícil a escolha. Assim, a boa idéia foi convidar Sabino para integrar o júri que optará pela frase de maior expressão. xxx Amanhã à tarde, Fernando e dois diretores do Bamerindus - José Carlos Puppi Piersom, da área de cadernetas de poupança, e Sérgio Reis, de marketing, examinarão as frases, apontando aquela que é a mais expressiva. No entardecer, Fernando Sabino terá um encontro com escritores, intelectuais e amigos da terra. Uma possibilidade de sum papo inteligente e descontraído com um dos escritores mais conhecidos e admirados do Brasil. Além de notável figura humana. xxx Os livros de Sabino, todos no catálogo da Editora Record, de seu amigo Alfredo Machado, estão entre os que mais vendem no Brasil. "O Gato Sou Eu" já passou dos 50 mil exemplares, em menos de três meses. Reunindo crônicas do dia-a-dia, com experiências pessoais ou de amigos. Sabino faz uma literatura suave e que atinge a todas as idades. Se há dois campos que Sabino conhece profundamente - afora outros - estes são o jazz tradicional ("até os anos 40, paro em Charlie Parker") e o cinema. Em "O Gato Sou Eu", há uma crônica em que Sabino fala de um ator que muito admira: Broderick Crawford. Uma estória que merece ser transcrita. xxx "Na portaria do hotel um homem corpulento, debruçado no balcão impedia nosso acesso David Neves e eu ficamos aguardando que ele se movesse, dando-nos espaço para que pudessemos nos registrar. Acabávamos de chegar a Hollywood. Logo o reconheci: era o ator Broderick Crawford. - Você aí - bati-lhe nas costas com o jeito de gangster que ele costumava assumir em seus filmes: - Você me deve um dólar. David, que também o reconhecera, olhou-me perplexo. O homem da portaria se crispou, na expectativa, sem saber se seria o caso de intervir. Mas o ator não se alterou. Levou lentamente a mão ao bolso da calça, retirou um maço de notas, separou um dólar e me estendeu sem sequer se voltar. Recusei a nota: - Só recebo numa mesa de bar. Ele acabou se virando e fixou em mim os olhos claros por entre as pálpebras empapuçadas: - Posso saber por que lhe devo um dólar? - e balançava o corpanzil, nota na mão ainda estendida. - Porque há vinte anos fez comigo uma aposta e perdeu. Ele ficou a m olhar, intrigado. De súbito se abriu um sorriso, deixando escapar alegremente o meu nome, e acolheu-me num abraço à brasileira. Estávamos em dezembro d 1972. xxx Em fevereiro de 1953, portanto quase trinta anos antes, Broderick Crawford esteve no Rio, em meio a um badalado grupo de artistas de cinema. Já era então o ator magnífico de "A Grande Ilusão", que lhe valeu um Oscar, e o falso padre que contracenou com Richard Basehart em "A Trapaça", de Fellini. Uma longa carreira de sucessos não ataia para ele a atenção do público brasileiro, mais interessado na beleza desta ou daquela starlet do grupo que nos visitava. Fui entrevistá-lo para uma revista. Subi a Petropólis onde os artistas participavam de um baile no Quitandinha. Encontrei-o refugiado no bar, tomando um gim duplo. Depois de me apresentar e aceitar acompanhá-lo num drinque, disse-lhe que os jornais o haviam promovido a intelectual da turma, por haver desembarcado do avião com um livro na mão. Era "The Disenchanted", de Budd Schulbert, informou ele: baseado na vida de Scott Fitzgerald. Ao saber que eu conhecia o livro, interessou-se pela conversa, falou em literatura e cinema, contou casos, fez perguntas sobre o Brasil. Acabou marcando um encontro para o dia seguinte no bar do Hotel Copacabana, onde estava hospedado. E lá realmente nos encontramos, passamos a beber gim pela tarde afora - enquanto eu tomava uma dose, ele tomava um copo inteiro. E assim nos tornamos amigos de infância. Ao anoitecer, propôs que fôssemos a outro bar aquele ali estava muito movimentado para seu gosto, com a presença da imprensa e curiosos em torno aos demais artistas. Disse-me que havia dado uma escapada até um botequim dos arredores e experimentado uma cachaça; lhe pareceu boa, embora um pouco doce. Saímos, e como na rua ele não parecia ter pernas para ir muito longe, fomos ao Michel, que era ali perto, só dobrar a esquina. Continuamos a beber e a horas tantas, surgido não sei de onde, Marco Aurélio Matos, se juntou a nós. Já era noite plena quando nos vimos erguendo brindes aos peixinhos no aquário atrás do balcão. Depois iniciamos uma discussão sobre o futuro do cinema. O ator afirmou que todos os filmes, dentro de dez anos, seriam em três dimensões. Estava em moda na época não apenas o sistema 3 D, mas o Panavision, o Vistavision, o Cinerama, a tela panorâmica e outras novidades. Eu sustentava que não, usano argumentos de bêbado em favor do advento do cinema em casa. Em televisão, propiamente, ninguém falou. Ele fez questão de apostar solenemente um dólar. - Só tem um prolema - adverti: - Quem ganhar, como vai cobrar um dólar do outro daqui a dez anos? Ele me tranquilizou com um vigoroso tapa nas costas: - A gente se encontra por aí ... O mundo é pequeno. De repente se lembrou que partiria ainda naquela noite. Consultei o relógio: - Por que não avisou? Está mais do que na hora. Vamos, senão acaba perdendo o avião. - Isso mesmo. É o tempo de tomarmos o último. A presença um pouco mais sóbria do Marco Aurélio Matos foi decisiva para que eu conseguisse arrancar o ator dali, conduzindo-o até o hotel. Chegamos em cima da hora: os outros haviam acabado de partir. Foi um custo convencê-lo a entrar no táxi que o aguardava, sua mala já havendo seguido para o aeroporto com os demais. Agora ali estava ele diante de mim, não dez, mas vinte anos depois, num hotel em Hollywood. A gente se encontra por aí... O mundo é pequeno. Era espantoso que se lmbrasse de meu nome, e da aposta de um dólar que havia perdido. xxx Para celebrar o reencontro, ele mandou ao meu quarto uma garrafa de champanha. Em troca, mandei-lhe uma lembrança que trouxera do Brasil, justamente para uma ocasião como essa: um vidro de pimenta-malagueta. No dia seguinte ele me disse que havia comido tudo e gostado muito, perguntou se não tinha mais. Passei a vê-lo diariamente, e embora ele nem sempre estivesse completamente sóbrio, eu sabia que não era de brincar em serviço: excelente profissional, saia-se bem de qualquer papel e ainda ajudava os outros a dar conta dos seus. Contou-me que estava contracenando com um jovem ator num filme para televisão. Vamos destruí-lo ou construí-lo? Perguntou o diretor. Depois do primeiro dia de trabalho, ele avisou: o jovem é bom, vamos construí-lo. David Neves e eu estávamos fazendo uma série de pequenos comentários sobre Hollywood para televisão. Ele se deixou filmar, mas advertindo antes que tomássemos cuidado: tínhamos de agir como se ele não soubesse, nem mesmo percebesse estar sendo filmado, pois seus contratos não permitiam. O que cumprimos à risca. David, com uma câmara na mão e uma idéia na cabeça, é capaz de tudo. E quando me despedi do ator, não fiz com le nenhuma aposta para ser cobrada em dez anos. Dez anos já se passaram, mas a gente ainda se encontrará por aí: o mundo pe mesmo pequeno".
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
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Tablóide
26/01/1984

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