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Sos Capelista

Wilson Galvão do Rio Appa, um dos mais conhecidos teatrólogos do Paraná, já com uma respeitável obra publicada (e dezenas de inéditos na gaveta), defensor entusiástico de nosso litoral (que conhece como poucos), abandonou por alguns dias às preocupações artísticas para, ao lado de quatro capelistas redigir um longo relatório encaminhado ao ministro Dirceu de Araújo Nogueira, dos Transportes. Motivo: uma última tentativa de salvar Antonina de se transformar em definitivo, uma cidade fantasma, frente ao fechamento do Porto Barão de Teffé. Após ter sido noticia nacional quando focalizada em recente audição do programa Fantástico (Rede Globo de Televisão), a centenária cidade esperava que as autoridades se interessassem pelo seu destino. Mas qual o quê! Frente aos frios números que demonstram a impraticabilidade econômica daquele Porto, em decadência desde 1962, o Ministério dos Transportes mostra-se pouco interessado em sua movimentação. Assim, idealisticamente, o prefeito Joubert Gonzaga Vieira convocou 4 nomes representativos daquela cidade - o administrador Edgar Withers, professor Alir Dittrich, engenheiro Jordelan Gabriel e Wilson Rio Appa - que é advogado da turma de 1954 da Universidade Federal do Paraná - para elaborarem um documento intitulado "Porto de Antonina - Realidade - Perspectivas - "Solução". No documento de várias páginas, é mostrada a dramática situação em que vivem mais de 3 mil pessoas cujos orçamentos familiares dependiam do Porto e o empobrecimento da cidade; são discutida as perspectivas e oferecida uma solução: entregar o Porto para que seja explorado pela iniciativa privada. Considerada "a Parati do Paraná", com seu casario colonial, ruas tranqüilas e bucólico clima de cidade que parou no tempo e no espaço, Antonina tem um grupo de fieis entusiastas entre os quais o médico Pio Taborda Veiga, o tv-man Valencio Xavier, os pintores Carlos Scliar e Djanira (que, sempre que podem, ali passam longas temporadas) e o cantor Moacir Franco - que defendem a sua manutenção como cidade de repouso, livre da poluição do progresso. Entretanto, em termos econômicos a situação é bem séria: os empregos são raros, o comércio está às moscas, há meses não se constrói nenhuma casa e o esvaziamento da cidade está em escalada, com sua população, principalmente os jovens, deixando a terrinha em busca de melhores perspectivas em Curitiba. Muito já se escreveu e discutiu em torno deste velho tema, mas agora, mais uma vez, os capelistas estão esperançosos de que o documento enviado ao ministro Dirceu Araújo sensibilize os técnicos, que, na frieza dos números, já condenaram a morte à cidade de tantas estórias na historia do Paraná. Xxx Apesar de ter dispensado parte de seu tempo para redigir o relatório enviado ao Ministro dos Transportes, o dramaturgo Wilson Galvão do Rio Appa não desanima de tentar fazer (bom) teatro com o seu grupo Capela, que reúne 40 bravos amadores capelistas, curitibanos e parnanguaras. Sexta-feira Santa encenará e Alexandra, perdida povoação no meio da Serra do Mar, sua nova peça: "A Paixão Segundo Todos os Homens". Além do elenco central, Rio Appa espera contar com a participação dos espectadores e para isso sugere que os interessados vão a Alexandra já na quinta-feira, onde poderão acampar. Para participar da peça a única exigência é possuir um manto "biblico" e vontade de fazer teatro. A peça vai durar nada menos que 14 horas, começando às 8 da manhã e terminando só às 22 horas - no melhor estilo da dramatização da Via Crucis que há vinte anos é encenada em Nova Jerusalem, Pernambuco, por centenas de pessoas. O grupo Capela vem adotando nos últimos seis anos uma filosofia de trabalho que se caracteriza pelo retorno às origens do teatro, "reencontrando o verdadeiro sentido do teatro popular, sem texto e que acontece dentro dos momentos festivos e religiosos das comunidades explica Appa.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
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Tablóide
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22/03/1975

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