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Aramis

Um banquete nova-iorquino para paladares especiais

"Pague um, leve três" sintetizou, com a maior objetividade, Denise Araújo, a curitibana que se tornou há pouco a primeira "Doutora em Woody Allen" (ver texto nesta mesma página), comentando "Contos de Nova Iorque" (Cine Bristol, hoje, 4 últimas exibições). São três estórias curtas unidas num filme com uma mesma cidade-tema: A Big Apple, na qual nasceram - ou vivem - os seus autores - apaixonados, Martin Scorcese, Francis Coppola e Woody Allen. O filme é como um banquete tão fino que servidos três pratos principais traz uma cruel dúvida ao gourmet: qual deles é o melhor? As comparações são difíceis, pois cada um tem um ingrediente: um tempero, um sabor e, sobretudo, um preparo especial! Assim, as comparações são feitas, mas o importante é que, no conjunto, o banquete é digno dos deuses. Basta ter bom gosto para saber apreciar. Infelizmente, parece que os curitibanos não gostaram destes pratos finos: a bilheteria foi tão fraca que, salvo decisão de última hora, o filme estará sendo substituído amanhã por outro banquete visual, "Splendor", de Ettore Scolla - uma espécie de "Cinema Paradiso - II", igualmente indispensável. xxx Há muitas formas de se apreciar "New York Stories", que assistimos pela primeira vez em sua semana de lançamento, em 1º de março de 1989, em Nova Iorque e que em maio era apresentado, hors concours, em Cannes. Como o próprio cartaz sugere, o filme tem três episódios nos quais Scorcese, Francis e Allen, em estilos próprios e intransferíveis, abrem três janelas distintas sobre a mesma cidade/personagem. Assim há a Nova Iorque das galerias de arte, do East End, nos amplos espaços dos "lofts" de artista que o mesmo Scorcese já havia explorado em outro filme magnífico ("Depois das Horas / After Hours") que explode no calor/paixão de "Lições de Vida". Modernizando livremente um texto inspirado no diário de Appolinaire Suslova, amante e protegida de Dostoievsky, Scorcese examina as neuróticas relações de paixão/submissão de um pintor excêntrico, Lionel Doble (Nick Nolte, extraordinário) e sua ex-assistente, discípula e amante, Paulette (Rosanna Arquette), que encerrado o caso amoroso, aceita permanecer em seu "loft" apenas para que tenha forças e conclua em poucos dias as telas para um exposição - mas sem a ele se entregar. A relação ciúme/posse/amor/tortura, com toques dostoieveskianos, explode em cores nas telas que Lionel produz, ao som de um rock estridente, a partir do antigo sucesso de Procol Harum "Whiter Shade of Pale"(Keith Raid / Gery Brocker). As cores das pinturas - na verdade, telas de Chuck Connelly, um dos mais badalados artistas plásticos contemporâneos - estabelecem um contraste com os sentimentos e fazem de "Lessons of Life" o episódio mais denso e dramático desta trilogia. Em compensação, Francis Ford Coppola preferiu a fábula, o tom de conto de fadas para um trabalho extremamente afetuoso e familiar, desenvolvendo o roteiro com sua filha adolescente, Sofia (também responsável pelos cenários), com outra filha, Heather McComb, como Zoe, uma pobre menina rica que vive em luxuosa suíte no Sherry-Notherland Hotel, freqüenta a melhor escola de Upper Side, tem um príncipe árabe como amiguinho mas, solitária pela separação de seus pais, tudo faz para reaproximá-los. Por acaso, uma jóia que a princesa Soraya havia feito chegar às mãos de seu pai, o maior flautista do mundo, Cláudio (Giancarlo Gianini), mas que ladrões tentam roubar da caixa do hotel, faz com que Zoe aproxime-se do pai e ajude-o a reconciliar-se com sua mãe Charlotte (Talia Shire, irmã de Francis Coppola). Tudo termina em Atenas, num concerto ao ar livre, diante da Acrópole. xxx Se a relação de amor dilacerante de "Lições de Vida" se contrapõe ao conto de fadas anos 90 de "A Vida sem Zoe", o terceiro - e mais aguardado episódio, "Édipo Arrasado", devolve Woody Allen com seu humor tipicamente judaico, do homem urbano inseguro mas justamente por isto mesmo na empatia universal - num episódio rodado entre dois trabalhos adultos - o magnífico "A Outra" (The Other", 1989, já visto em Curitiba) e "Crimes e Punições" (já lançado em São Paulo). O humor "newyorker", pessoal e profundo de Allen está presente em "Édipo Arrasado" desde a primeira seqüência: em close, defronte ao psiquiatra (Marvin Chatinover), fala que, advogado estabilizado, 50 anos, sente-se pressionado por sua idosa mãe (Mae Questel), que interfere em seus romances e não aceita seu relacionamento com Lisa (Mia Farrow), divorciada, três filhos. Como bem frisou o crítico José Cláudio Guimarães, Allen, mais uma vez, brinca não apenas com a figura aterrorizante da supermãe judia, mas também com a perda do sossego, que é o privilégio das grandes cidades. A supermãe - uma interpretação magnífica da veterana Mae Questel (ela foi durante anos a voz de "Betty Boop", personagem de desenhos animados dos anos 30/40) - desaparece durante um show de mágica, reaparecendo, depois, entre os edifícios da cidade, como uma mulher-nuvem, expondo e discutindo com a população os defeitos, anseios e dúvidas do filho Sheldon. Um surrealismo fantástico, que, para uma visão psicanalítica (no que os filmes de Woody são sempre pratos cheios) oferece várias interpretações. Dos três episódios, Allen é o que mais leva às ruas da Big Apple as câmeras, filmando no Central Park, na 5ª Avenida, nos contrastes dos edifícios - com todo o amor que tem por Nova Iorque, cenário de praticamente toda sua filmografia e a qual tem dedicado verdadeiros hinos apaixonados ("Broadway Danny Rose", "Manhattan", "Hannah e suas Irmãs", etc.). O humor surrealista e simbólico de Allen nem sempre passa a platéia menos (in)formada, que também não reconhece muitas citações - como o prefeito de Nova Iorque, na época, Edward Koch, que, amigo de Allen, aceitou participar de uma rápida seqüência, aproveitada num noticiário de televisão, quando se discute a presença já cotidiana, da mãe de Sheldon, nos céus nova-iorquinos. A fórmula de reunir vários sketches num longa não é novidade (os italianos usaram e abusaram nos anos 60, com obras como "Boccacio 70", "As Rainhas", "As Bonecas", etc.), mas nos últimos anos o esquema havia sido abandonado. "Contos de Nova Iorque" é um banquete com três pratos de resistência que merecem serem degustados com o maior prazer. Haja apetite! LEGENDA FOTO - O humor surrealista de Woody Allen em "Édipo Arrasado": advogado Sheldon (Woody), a supermãe (Mae Questel) e a noiva ansiosa (Mia Farrow). Uma parábola imperdível. Hoje em últimas exibições no Bristol.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
3
23/05/1990

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