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Um Homem

CURY, O AMIGO PARA TODAS AS ESTAÇÕES Há pessoas que conseguem superar humores, irritações, divergências e problemas que infelizmente separam os homens. José Cury é uma destas magnéticas personalidades. Ao seu redor, hoje à noite, no Madalosso, estarão algumas centenas de pessoas - dos mais diferentes segmentos, como diria um repórter de televisão - que, ao longo de quase cinco décadas aprenderam a estimar o Cury, acima de qualquer defeito ou restrição, um grande ser humano. Num tablóide de 16 páginas, que circulará na ocasião, reunindo depoimentos de uma dezena de pessoas que, em diferentes épocas, com ele conviveram, está documentado um pouco do que Cury significa para a cidade. Uma entrevista no suplemento "Fim de Semana", que o Estado publicava há quatro anos passados, funciona como uma espécie de autobiografia. Em linguagem sincera, dando nome aos bois, Cury recorda a Curitiba dos anos 40, os tempos pioneiros de "A Palavra" - a primeira publicação que editou, "O Livro" e "Revista da Guaíra" - revistas que, comparadas ao que hoje existem, ganhariam em qualidade editorial e gráfica. Impressas em off-set há 40 anos, quando Curitiba não tinha sequer 100 mil habitantes, as revistas feitas pelo Cury - que as viabilizava financeiramente, enquanto o fiel amigo Samuel Guimarães da Costa sempre as comandava em termos de redação - são exemplos de uma imprensa que comporta até ensaios e pesquisas de maior profundidade. Com toda razão o publicitário Eloy Zanetti, 39 anos, diretor da Umuarama - um dos idealizadores desta homenagem a Cury inspirou-se para fazer o seu texto-depoimento naquela antiga seção que era das mais populares da revista "Seleções do Reader's Digest": Meu Tipo Inesquecível. Realmente, Cury, em suas grandezas e defeitos de ser humano, é um tipo inesquecível para os que com ele conviveram em dias e noites (principalmente noites) de uma época diferente de nossa cidade. Hoje, todos mais envelhecidos, muitos já alquebrados pelos anos e com a saúde que não permite mais as etílicas e eróticas façanhas do passado, mais do que a simples nostalgia de um tempo perdido (ou ganho, conforme a ótica de cada um), oferecem uma visão humana e profundamente amiga de uma personalidade que, com seu modo de trabalhar, sua presença nos meios de comunicação foi que viabilizou revistas como "O Livro" - cuja importância histórica só será devidamente aquilatada se alguém se der ao trabalho de reconstruir uma coleção (hoje rara) desta publicação - ou manteve viva a "Panorama", 35 anos, fundada pelo professor Adolpho Soethe, teria, nele, seu sustentáculo nos últimos 20 anos - após o poderoso empresário Oscar Schrapp Sobrinho, da Impressora Paranaense, ter se desinteressado da publicação. A "Panorama" - um dos melhores títulos de revistas em todo o mundo (não é à toa que a poderosa Abril namorou por anos a sua compra) ao contrário de outras revistas regionais, como a "Alterosa", de Belo Horizonte ou a "Revista do Globo", em Porto Alegre, resistiu a trovoadas e tempestades. Hoje, pertencente a outro veterano da imprensa, Ubaldo Siqueira, que com uma equipe comandada por Milton Ivan Heller tenta resgatá-la como publicação eminentemente paranista, a "Panorama" é a resistência local em termos de informação voltada a valores nos quais muitos ainda acreditam. Numa época em que a velocidade da informação eletrônica, rádio/televisão, modificou padrões de comportamento e eliminou outros meios de informação (como o cine-jornal) e um novo conceito de jornalismo faz com que publicações tipo "Veja" e "Isto É", substituam as antigas revistas ilustradas, tranqüilas e até pachorrentas, não é fácil manter uma publicação mensal como "Panorama". Ao longo de 36 anos, em 362 edições que chegaram às bancas e assinantes desde julho de 1951, a "Panorama" tem, desde a metade dos anos 50, a presença de José Cury. Com maior ou menor empenho, dependendo dos ciclos de sua vida, ele sempre encarnou o próprio espírito deste veículo paranaense em cujas páginas está um pouco de nossa história - inclusive (e principalmente) aquela não oficial, tão saborosa. José Cury, como foram no passado Aristeu Brandespim com seu "NP - Novo Paraná" e o sempre inesquecível Ali Bark, com a generosidade de homenagear pessoas em seu "Rumo Paranaense", são exemplos de pessoas em que, na busca da publicidade, do anúncio, dignificam a profissão de editor, sem jamais recorrer à chantagem, ao ódio, ao jornalismo marrom. A generosidade e humanidade de José Cury, um libanês com quem é impossível brigar, o faz merecedor deste encontro de amigos de todas as tendências que hoje, com muita alegria e entusiásticos discursos, por certo o estarão fazendo emocionar se embora, duro na queda, ele garanta que a última vez que teve uma emoção que poderia fazer o seu (imenso) coração parar, foi quando recebeu a notícia de que as verbas oficiais para "Parnorama" haviam sido canceladas. LEGENDA FOTO - Ao longo de uma vida, José Cury sempre fez bons amigos em vários setores - como o casal Sandro Polonio/Maria Della Costa, aqui, ao lado do casal Luiz Roberto Soares, ele, na época, secretário da Cultura e Esportes.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
13
23/10/1986

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