Um Kama Sutra para menores e as insinuações de Dulce
Um álbum intitulado "Kama Sutra", trazendo na capa reproduções do mais famoso tratado da arte do amor físico, sugere, obviamente, o máximo em canções eróticas. Uma verdadeira antologia de sussurros e declamações em prol do amor explícito, já que vivemos tempos liberais. Entretanto nada disto acontece em "Kama Sutra", quarto lp do bem sucedido Dalto, ex-médico que a partir de "Muito Estranho" escalou as paradas de sucesso.
Catipultuado às paradas de sucesso já em seu primeiro lp, Dalto é um romântico acima de tudo, embora Luiz Antônio Mello, num insinuante release da Odeon - que acompanha este seu quarto elepê - o defina como "um músico diversificado". As canções reunidas neste Kamasutra trazem um clima de tranqüilidade de vários meses de composição, nos quais Dalto - sempre ao lado de seu parceiro Cláudio Rebello - isolou-se em seu estúdio particular na praia de Piratininga, em Niterói. Mello ainda diz que "para mergulhar em Kamasutra Dalto não poupou nada, especialmente seu apetite poético e uma misteriosa capacidade de transformar o nada em momentos melódicos quase extraordinários".
O erotismo de Dalto vai apenas à insinuação, como em "Pane Total":
Use toda a cama por favor/ O que não falta é paixão
Escolhe meu bem/ Qualquer posição.
Mais adiante, em "Asas", num convite à mulher amada, diz:
E quando se despir/ Ligue o rádio
Faça alguma coisa com as mãos
O nosso amor é assim/ Um pássaro sem direção.
A SURPRESA QUENTAL - Linda, insinuante, sensual. Eis uma definição para Dulce Quental, uma nova voz e compositora que ganha agora seu primeiro disco: "Délica" (Odeon, março/86). Fernando Muniz diz em texto de contracapa que "ouvindo a música de Dulce descobre-se o que ela construiu com rara obstinação, perfeccionismo, intuição: a gama que flui de uma forma de vida inquieta, incompleta, confusa. Agridoce, esse é o sabor do disco".
Assessorada por gente moça e criativa, com um repertório que inclui novos autores - como Aldo Meolla (não confundir com o guitarrista Al Di Meola, que quase veio ao Brasil no mês passado e tem novo lp na praça) autor de "Tudo É Mais" e "Pra Nós", Flávio Murrah e Rômulo Portela ("Para os Que Estão Em Casa"), Branco Mello e Ciro Pessoa ("Diferentes"), Dulce Quental é também autora - seja acumulando música e letra ("Delicado Demais"), seja em parcerias - como com Flávio Murrah na excitante "Garganta" ("A minha vontade é voraz/É minha visão que diz/Quero explodir a minha voz/Te trazer pra dentro de mim") ou com Beti e Cláudia Niemeyer na expressiva "Délica" que dá título ao disco. Jorge e Wally Salomão fizeram a versão de uma música da dupla Steve Percaro/John Bettis ("Natureza Humana"), mas é numa canção com letra e música de Dulce Quental, provavelmente para um ex-amor, que está o seu momento de malícia e maior erotismo: "Bossa do Bayard".
Ele é cheio de poesia/Calças sujas de tinta.
Pintando fora da tela/Vivendo o próprio poema.
Seu sexo é um pincel/Impressionando mulheres
Com toque claro e leves/
Colore lábios e peles.
A voz de Dulce Quental não é poderosa. Ao contrário é pequena, difícil até de conduzir certas canções. Mas a produção (Mayrton Bahia) foi cuidadosa e arranjadores como João Donato e a participação de bons músicos suprem muitas falhas. Sem cair no rock mas numa linguagem jovem - com letras que mostram uma poética dos jovens destes anos 80 - Dulce Quental é no mínimo uma bela presença visual na música deste ano.
LEGENDA FOTO - De erótico, "Kama Sutra" só tem Dalto, o compositor, na foto de contracapa do lp.

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