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Aramis

Muito sexo e pouco tesão

Nunca se falou e se mostrou tanto em sexo. Um sexo que não chega a ser excitante nas imagens, mais para o cinismo, a imoralidade, do que para o tesão visual. Rio de Janeiro - Memórias da guerra, sexo, sentimentos humanos. Eis um tripé que, num primeiro levantamento, sintetiza ao menos 60% dos mais de 300 filmes reunidos no porre visual que se constitui a quarta edição do FestRio. Difícil, no meio (ainda) do festival - com filmes ainda não vistos, outros programados sendo cancelados a última hora por diversas razões (falta de legendas, problemas burocráticos na liberação da alfândega etc.), tentar uma análise mais profunda do que foi o festival de cinema, televisão e vídeo, que encerra na madrugada de sábado, com o baile "Luz das Estrelas" no Hotel Nacional, após a cerimônia de encerramento. Entre a entrega dos vários prêmios - dos "Tucanos" oficiais as premiações paralelas por diferentes entidades e instituições - e a pré-estréia do fascinante "O Último Imperador", de Bernardo Bertolucci - (que a Columbia Pictures lançará comercialmente no Brasil dentro de alguns meses), a festa estende-se com as naturais alegrias e tristezas, aplausos e vaias - que reportaremos, em detalhes, a partir da edição de terça-feira. O que vale, aqui, é sentir a tendência do cinema internacional, refletido tanto nos filmes em competição como em algumas das mostras paralelas. Basicamente, muitos filmes com a guerra como cenário e nunca se falou e se mostrou tanto em sexo. Um sexo que não chega a ser excitante nas imagens, mais para o cinismo, para a amoralidade - do que para aquele tesão visual que, até 10 ou 15 anos atrás, as imagens (então) "proibidas" transmitiam. Tem razão a sempre sensível Pola Vartuck, crítica de "O Estado de São Paulo", emocionada com o uso de seqüências de antigos filmes românticos dos anos 30/40, que Diane Keaton fez em seu "Paraíso" (Heaven, uma das melhores atrações da mostra "Olhar Feminino") ao comentar: - "Como era bonito o amor antigamente". Ao menos a forma de mostrar o amor. Hoje, as imagens dos filmes que chegam num festival como este, reunindo produções vindas de mais de 20 países oficialmente na competição - e mais duas dezenas se considerarmos as mostras paralelas - trazem o amortecimento do erótico, no trivial que faz com que há muito a censura tenha, ao menos em termos de imagens de mulheres (e homens) nus, em transas sexuais, perdido qualquer razão de ser. Sexo sem tesão - Os personagens de dezenas de filmes produzidos entre 1986/87, exibidos pela primeira vez neste FestRio, transam muito. Fazem amor de diferentes maneiras, com diferentes preferências sexuais. O espanhol Pedro Almodovar, que no ano passado já havia trazido "El matador" - misturando toureiros e gays em uma sangrenta história que seria escabrosa em outros tempos, acaba sendo aceita com entusiasmo, eleada por alguns dos críticos e jornalistas que cobrem o festival como obra-prima (?), enquanto outros somente podem aceitar um filme deste nível como comédia - ou brincadeira da Espanha em competir no FestRio tão por baixo, principalmente considerando que o país já tem uma tradição cinematográfica marcante. Entretanto, Carlos Saura há muito reserva seus filmes para Cannes e Buñuel é saudade! Vejam só a história da "A lei do desejo": quando seus pais se separaram Pablo e Tina eram dois meninos: Tina era Tino, mas, ao ir morar com o pai, trocou de sexo e passou a ser mulher dele. Anos depois, abandonada pelo pai-marido, passou a odiar os homens. Pablo é um roteirista e diretor de teatro e cinema, apaixonado por Juan, mas ao contrário do irmão, ao invés de fugir dos problemas emocionais prefere muitos envolvimentos. Numa prova de que a Aids não o assusta, trocar de parceiros - e quando seu amante Juan viaja, envolve-se com Antônio, jovem ambicioso e que se revela um mau caráter. O homossexualismo explícito está claro desde a primeira seqüência e o filme não tem meias medidas: é debochado e cínico. No elenco, a travesti Bibi Andersem (não confundir com a atriz sueca dos filmes de Bergman), que já havia atuado em "O matador", tem um papel marcante e já houve até quem lembrasse, durante as prévias da premiação, seu nome como "melhor atriz". A trilha sonora é um primor Kitsch, embora Almodovar tenha tido bom gosto: entre boleros, há a melhor gravação de "Je ne me quitte pas" com a inesquecível Maysa dando a melhor interpretação à clássica canção de Jacques Brel. Maysa morou alguns anos na Espanha e, pelo visto, lá ela não foi esquecida. Em "Atração Fatal", o terceiro longa do ex-diretor de filmes publicitários Adrian Lyne ("Flashdance", "Nove e meia semanas de amor") - maior êxito de público nos EUA nos últimos meses (já faturou US$ 100 milhões) e quem tem lançamento comercial previsto para o dia 25 de dezembro pela UIP, há o sexo moralista. Talvez por este moralismo é que a família americana está prestigiando tanto este filme - conforme explicações de seu cabeludo diretor que foi uma das figuras mais badaladas do FestRio. "Fatal Attraction" poderia se chamar também de "pior do que a Aids é uma mulher que pega no pé". Vejam só: Alex Forrest (Glen Close, que tem uma boa carreira, indicações ao Oscar por filmes anteriores) é uma bela executiva solteira que transa com um advogado yuppie, Dan Gallagher (Michael Douglas), seu colega numa grande editora de Nova Iorque. Dan é casado, apaixonado pela esposa (Anne Archer) e pela filha de 5 anos, e não alimenta ilusões para Alex: é apenas um caso de fim-de-semana em que a esposa e filha saíram em férias. Só que Alex não aceita: passa a perseguir Dan, ameaça seqüestrar sua filha (lembrando "Crime de amor", o filme nacional que contou o drama da "Fera da Penha", lembram-se?) e, tal como aquela personagem que infernizava a vida do Disc-Jockey interpretado por Clint Eastwood em "Perversa Paixão" (PLay misty for me, 1971) está disposta a tudo para que Dan abandone a família e a assuma em suas neuroses. O final é dramático, com uma mistura Kitsch de Hitchcook com H. G. Clozot: o Assassinato no banheiro, a Morta-viva levantando-se tal como "As Diabólicas" (1954), fez o público urrar. Há os que adoram e os que detestam. Nas entrevistas que ocuparam nobre espaço na imprensa nacional, Adrian Lyne confirmou o que já havia sido noticiado: originalmente, o final seria operístico com Alex suicidando-se ao som de "Madame Butterfly" (ela no filme é fanática por ópera). Só que os executivos da Warner exigiram um outro final, deram US$ 1.500,000 para Lyne refazer as seqüências e acertaram na loteria: o público adorou a "Happy end" sangrento mas feliz para a família tradicional. Erotismo polonês - A "Glasnot" mostra que nos países socialistas também se transa muito. Em "O Arco de Eros" (Luk Erosa) de Jerzy Domaradzki, uma esposa fiel no início do filme, quando o marido parte para a I Guerra Mundial, começa a descobrir as delícias do sexo fora dos lençóis conjugais e termina num bordel. O filme é bem realizado, refinado e a atriz Grazyna Trela é bela e atraente - mostrando uma nudez plácida. Outra sensual atriz é a venezuelana Maria Luisa Mosquera, que como "Macu", La mujer del policia" - representante da Venezuela, direção de uma sueca, Solveig Hoogesteijn (que também veio para o FestRio, mas passando despercebida), transa tanto que seu marido, um policial tipicamente latino-americano, acaba assassinando nada menos que três adolescentes, embora só um deles fosse o amante de Macu. Já os checos trazem o sexo com melhor humor: em "Paisagem com Mobília", Zdenek, um estudante de música, transa muitas mulheres e acaba assumindo a gravidez justamente de uma jovem que o engana - e o pai da criança é outro. No final, ao melhor estilo de "Kramer x Kramer" acaba também assumindo as responsabilidade da maternidade/paternidade quando a moça se manda alcoólatra e viciada em drogas. Sexo à British Style - Os ingleses também são bons de cama. E cada vez mais liberais. Stephen Frars, vencedor do III FestRio, com "My Beautiful Laundrette" - como o espanhol Almodovar, é adepto do cinema gay. Em "Prick up your ears" - que era aguardada até ontem, na mostra paralela - conta o caso de amor do dramaturgo Joe Orton e Ken Haliwell que acabou em assassinato a 9 de agosto de 1967. Em "My Beautiful Laundrette" - que voltou a ser exibido neste FestRio - mostra o caso de um inglês com um jovem paquistanês. Em "Sammy and Rosie", a comunidade paquistanesa volta a figurar numa história de relações hetero e homossexuais, entre muitas violências na rua. Peter Greenaway, considerado a nova sensação da cinema inglês, premiado por "A barriga do Arquiteto" (aguardado até ontem, na mostra paralela) também coloca um menage a trois" em "A zed an two noughts" e em "The Draughtsman's contract" mergulha seus personagens num clima erótico, só que em cenário bem mais refinado daquele que Frears bregamente mostra em seus filmes. Com humor, o ex-Monthy Python, Terry Jones, em "Personal Services" aborda a sexualidade de uma mulher: o filme fala de prostituição, desejos selvagens e perversidade. "Rita, Sue and Bob too", de Alan Clarck mostra como duas baby-sytters seduzem um casal que leva uma vida sexual tediosa e enfadonha. Até os chineses comunistas abrem suas portas para mostrar o apetite sexual do imperador Pu Yi, o último da dinastia Quing, que teve três mulheres - a imperatriz Wanrong e as concubinas Wenxiu e Tan Yuling. Esta visão do lado feminino da vida de Pu Yi é tratado em "A última Imperatriz", representante da China continental no FestRio, enquanto Bertolucci, em sua superprodução, preferiu ser mais panorâmico e biográfico da vida do trágico imperador chinês. Sem limitações de sexo e erotismo, mas longe daquelas imagens proibidas e bem mais mágicas para as fantasias de uma outra geração, não é sem razão que os mais velhos, presentes a este FestRio, sentissem um "frissom' ao cruzar na sala Glauber Rocha ou nos corredores e salões do Hotel Nacional com aquela que, há mais de três décadas, inspirava sonhos e onanismos, em filmes rigorosamente proibidos para menores de 18 anos: a cubana Ninon Sevilla. Ironicamente, a proporção que as atrizes (e atores se despem e o sexo passa a fazer parte do trivial, Ninon, sexagenária mais ainda bela e elegante, é um símbolo erótico em ritmo de máquina de tempo nesta quarta edição do FestRio. LEGENDA FOTO: "Esperança e Glória", de John Boorman, foi um dos filmes mais sentimentais do FfffffestRio.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
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27/11/1987

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