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Aramis

Raulzinho do trombone, das noites curitibanas, chega agora em vídeo

No final dos anos 50, a Escola de Oficiais e Especialistas e Guardas do Ministério da Aeronáutica, no Bacacheri, teve um comandante que era um apaixonado pela música das big-bands americanas. Ao assumir o comando da unidade e ali encontrando uma banda de música que se limitava a um repertório naturalmente "oficial", o brigadeiro não teve dúvidas: decidiu que a mesma deveria ter uma melhoria artística. Esta é a razão pela qual Curitiba ganhou no início dos anos 60 não apenas uma das melhores bandas militares que já existiram no Brasil como a noite - então em sua grande época - foi enriquecida com a presença de excelentes instrumentistas. Eram os sargentos-músicos da EOEG, que embora submetidos ao duro regime militar, com ensaios matinais, passaram a tocar em boates, night-clubes e também com as orquestras de Osval e Genesio Ramalho que, naqueles anos de ouro, faziam centenas de apresentações anuais. Entre muitos e talentosos instrumentistas de metais - pistonistas, saxofonistas, trombonistas etc. - que engrandeciam a banda da EOEG, alguns acabariam se projetando individualmente. O pistonista Geraldo Elias, de sólida formação instrumental, requisitado professor de jovens interessados em conhelíticos do Norte em ascensão econômica - e que ficavam a solicitar tangos e boleros, Raulzinho compensava as concessões comerciais, fazendo, após o seu compromisso oficial, o melhor jazz. Uma noite, chateado com os pedidos de um pentelho que insistia em que ele repetisse "Cerejeira Rosa"- grande sucesso na época - Raulzinho saiu, apanhou um pedalim defronte o clube - que existia onde hoje há o Restaurante Lá no Pasquale, no Passeio Público e atravessou o lago para fazer uma "serenata" para um búfalo que havia chegado recentemente no Zoo e estava numa das "ilhas" do conjunto de canais daquele parque. Ali, Raulzinho improvisou um tema tão bonito que desenvolveria posteriormente e, anos depois, ao gravar seu primeiro LP nos Estados Unidos (álbum "Colours", produção de Airto e Flora Purim) ganharia o título de "Water Buffalo". xxx Raulzinho não ficou muito tempo na banda da EOEG. As madrugadas conflitavam com o rigor militar a após uma série de prisões - mesmo com lista Roberto Mugiatti, hoje poderoso editor-chefe da "Manchete" (*), na época, iniciando sua carreira na imprensa teorizava com seus amigos Eduardo Rocha Virmond e Adherbal Fortes no jazz after hours em casas como a La Vie En Rose Marrocos, Moulin Rouge, King's Club (onde o baterista e cantor era um jovem chegado há pouco de Ponta Grossa chamado Airto Guimorvan Moreira) graceful, e especialmente o Clube Tropical, no Passeio Público - que Paulo Wendt havia conseguido arrendar na administração do prefeito Iberê de Mattos, . Especialmente no tropical, muito freqüentado por endinheirados cafeicultores e pocer os segredos do instrumento, chegou a fazer parte também da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Paraná e até hoje continua em ação. O sargento Ari Lunardet, excelente sax-barítono, foi outro que não deixou Curitiba e hoje integra a orquestra que Genésio reagrupou (embora sem ficar na sua regência) para as noite de sexta-feira no night clube Four Seasons, no sofisticado Hotel Bourbon. O belo sopro de Ari também pode ser ouvido no restaurante Palumbo, em duo com os harmoniosos teclados de Marino Pereira, 25 anos. Seria, entretanto, o mais rebelde dos músicos da EOEG e o que teria maior projeção; Raulzinho. Carioca, onde iniciou sua carreira, Raul de Souza - trouxe para as noites curitibanas o som do trombone de vara, instrumento que, até a sua chegada não havia sido ainda destacado por nenhum virtuose de sua dimensão. Jazzofilo apaixonado, Raulzinho se enturmaria com uma geração de músicos e apaixonados pelo estilo bepop que o jorna/[faltou alguma palavra neste trecho] toda simpatia do comandante da Escola por seu talento - ele dedicou-se apenas a música. Integrou o RC-7, conjunto que acompanhava o "rei" Roberto Carlos, participou de dezenas de gravações, chegou a fazer um elepê na extinta etiqueta Equipe, dividiu com outros virtuoses o histórico lp "Os Cobras" (Copacabana, 1963). Como tanto outros músicos acabou indo para os EUA, onde apesar de se dar bem - tocando com gente famosa e gravando meia dúzia de elepês, acabaria retornando. Tendo constituído família em Curitiba, sua presença entre nós sempre foi uma constante em suas férias e, por algum tempo, chegou até a tentar fixar-se definitivamente entre nós. A última aconteceu há cerca de dois anos, quando entusiasmado por um projeto da compositora Mara Fontoura, do grupo As Nymphas - e dona do estúdio Gramophone, tentou criar uma big-band, que, infelizmente não passou de alguns ensaios. Infelizmente, o mercado regional não conseguiria absorver o projeto de uma orquestra como havia idealizado. xxx Reconhecido como um dos nossos melhores trombonistas de vara - além de ter criado - também um instrumento de características próprias ( "O Souzobone"), requisitado sempre para trabalhos no eixo Rio-São Paulo, com uma discografia espalhada em várias etiquetas, Raulzinho acaba de ter seu talento reconhecido por Moracy do Val e Antonio Carlos Reale, diretores da Reserva Especial de Cinema e Vídeo. Dentro do pacote de lançamentos para um novo selo - o "Music Special", comemorativo aos 3 anos de existência desta distribuidora, foi incluído uma produção que traz o nosso grande Raulzinho, em 60 minutos, executando o melhor jazz - a partir de temas brasileiros. Dentro da pobreza de vídeos musicais de jazzistas brasileiros, esta edição se constitui num fato dos mais significativos - o que justifica o destaque que damos hoje a Raulzinho. Os outros quatro títulos do pacote não merecem tanto: trazem grupos de rock (Ira!, Ratos de Porão, Capital Inicial e Banda Búfalo), para faixas específicas de público. Raulzinho, com sua inventividade, bom gosto e harmonia - acompanhado por ótimos instrumentistas - valoriza esta edição. Moracy do Val, ex-jornalista da área de show business, hoje empresário artístico, acredita que as fitas musicais terão também grande aceitação de venda direta ao consumidor final. Quem desejar adquiri-las deve ligar para (011) 285-4507. LEGENDA FOTO: Raulzinho - na foto ao lado da cantora Carmen Costa - tem um vídeo na praça, lançado pela Reserva Especial, com 60 minutos de seu jazz ao trombone de vara.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Nenhum
Vídeo/Som
21
15/03/1992

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