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Tereza, uma mulher e a luta pelos músicos

Teresa Souza, uma letrista da música brasileira. Mais do que uma poeta que tem emoldurado belíssimas canções e os mais belos jingles produzidos no Brasil nos últimos anos - e que ajudou muito para que o Nosso Estúdio fosse considerado como estúdio da década - Tereza é uma mulher que tem brigado, bonito e corajosamente, em favor de nossos instrumentistas. Casada há 21 anos com um inspirado violonista e compositor, Walter Santos, Tereza sentiu sempre na carne (e, principalmente, no orçamento doméstico) as dificuldades da vida musical. Assim, este ano, corajosamente, investiu os lucros que o Nosso Estúdio conseguiu ao longo de muitos anos de um trabalho sério e dedicado, em favor da valorização dos instrumentistas. Esta preocupação de Tereza para com os músicos esteve refletida em todos os contatos que manteve com a classe em Curitiba, na quinta e sextas-feiras, acompanhando o D'Alma, trio de virtuoses do violão - primeiro grupo nesta formação, sem favor nenhum o melhor evento instrumental do ano passado - e que, pela primeira vez faz uma temporada em Curitiba (Paiol, hoje e amanhã, 21 horas). Carioca de nascimento, paulista de adoção, Tereza tem profundas ligações com o Paraná. Isto se deve especialmente ao fato de há muitos anos ser a criadora de toda a programação musical das campanhas publicitárias do Bamerindus. Deve-se [à] Tereza e Walter os belíssimos jingles e vinhetas que caracterizam as inserções publicitárias do Bamerindus, não apenas no sentido promocional mas, especialmente, no lado institucional. A série de jingles que Tereza e Walter produziram para o Bamerindus, valorizando cada município do Brasil, em suas características, personagens típicos, usos e costumes, com uma passagem musical belíssima, foi premiada pelos colunistas de propaganda e está, indiscutivelmente, entre os mais belos trabalhos da propaganda em nosso País. Um trabalho tão bonito que Eloy Zanetti, diretor da Umuarama Publicidade, produziu um álbum-brinde, "O Som Brasileiro do Bamerindus" (título que demos a uma crônica a respeito, há mais de 3 anos, aqui em O ESTADO), reunindo nestes jingles e que estará sendo distribuído dentro de alguns dias. Os jingles do Bamerindus, pela qualidade com que são produzidos ultrapassaram os limites da inserção comercial. Luiz Gonzaga, entusiasmado com a aceitação que o comercial que fez para o banco, deu ao seu lp gravado em 1979 o título de "O Homem da Terra". Agora é Dominguinhos (José Domingos de Morais, Garanhuns, PE, 12/2/1941), dito herdeiro do grande Lua que também comunicou a Zanetti sua disposição de transformar numa música para o seu próximo lp na RCA, um tema inicialmente criado como jingles produzidos nos últimos anos no Brasil cresceu tanto que há algum tempo, Dominguinhos a encontrou e comentou: - Ouvi uma música tão bem gravada que pensei que fosse um jingle produzido pelo Nosso Estúdio!. xxx Mas Tereza é, como dissemos no primeiro parágrafo da coluna, uma mulher que briga pelos direitos dos instrumentistas. Seu áudio é um dos mais que valoriza os profissionais, através da ASSIM - Associação dos Intérpretes e Músicos, liderou uma campanha contra o Ecad/CNDA, fazendo denúncias que se comprovaram agora, em termos de corrupção e má aplicação dos milhões arrecadados nos direitos autorais. Dando exemplo de prestigiamento aos instrumentistas. Walter e Tereza criaram um selo - "Som da Gente", destinado basicamente a dar oportunidade aos músicos fazerem "os discos com que sempre sonharam". O primeiro álbum foi do grupo Medusa, formado por Amylson Godoy , (teclados), Beltrami (baixo) e Heraldo de Monte (guitarra), que já vendeu mais de duas mil cópias. O saxofonista Hector Costita (Hector Bisignani, Buenos Aires, 27/10/1934), há 24 anos no Brasil, ali fez um disco de nível internacional, mostrando todas suas potencialidades de saxofonista, compositor e arranjador. Há algumas semanas, e como aqui registramos, foi Alemão (Olmir Stocker, 45 anos, gaúcho de Taquari), guitarrista, compositor, que fez o seu aguardado lp solo ("Longe dos Olhos..."), reunindo composições de várias fases, inclusive da época em que morava em Curitiba, integrando o quinteto de Breno Sauer - que no início dos anos 60 foi contratado do La Vie En Rose e, posteriormente, da Marrocos. Até o final do ano, o Nosso Estúdio estará lançando mais três lps instrumentais: o trio D'Alma (cujo primeiro disco saiu pelo CLAM, selo do Zimbo Trio), o guitarrista Fredera e Dick Farney, pianista e cantor de longa carreira, mas há anos sem ter chances de fazer um disco [à] altura de seu talento. xxx Que se interessa pela música instrumental, especialmente o violão, não pode deixar de aplaudir, neste fim de semana, o Trio D'Alma. Formado há apenas dois anos, o grupo integrado por André Gerrissati (30 anos), Ulisses Rocha (20 anos) e Rui Saleme (28 anos), tem uma musicalidade única, apresentando exclusivamente composições próprias. A força do D'Alma é tão forte que o seu primeiro lp foi lançado já na Alemanha, por sugestão do guitarrista John McLaughlin, que, entusiasmado ao ouvir os rapazes, no II Festival Internacional de Jazz (São Paulo, 24 a 27 de abril de 1980), fez questão de com eles tocar, e, agora, na Europa, associou-se ao guitarrista espanhol Paco de Lúcia e ao americano Al Di Meola para formar o segundo trio de violonistas do mundo. Ou seja, o D'Alma, pioneiramente, já fez uma escola internacional. Humildes e cativantes. xxx Junto com Tereza e o D'Alma, veio à cidade o produtor e músico José Wilson Pereira, executivo do selo O Som da Gente e agora membro da nova diretoria do Ecad. Na quinta-feira, José Winson manteve vários contatos e visitou a representação local do Ecad, sentindo a situação (e problemas) do organismo arrecadador de direitos autorais entre nós.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
6
24/10/1981
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