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Aramis

Obina Shok dá início à grande invasão africana

No final do ano passado foram dados os primeiros toques mas a grande invasão começa agora: a música africana devidamente reciclada e empacotada para consumo. Paul Simon já foi a África do Sul para fazer seu premiado "Graceland" (WEA, aqui comentado na semana passada) e, a mesma gravadora já tem pronto para lançamento o seu primeiro "pacote negro" - quatro elepês com grupos africanos - "Aura" (1984), de King Sunny Ade, "Chimurenga for Justice" (1985), de Thomas Mapfumo & The Blacks Unlimited, "Pirate" de Ini Kamoze e "Nelson Mandela" (1984), de Youssou N'Dourx and Super Stoile Dakar, todos lançados na Europa pela "Rough Trade" - etiqueta especializada em música africana. A RCA, entretanto, foi mais rápida. Já no primeiro semestre do ano passado contratou o grupo Obina Shok, cujo primeiro elepê sofreu sucessivos retardamentos (especialmente devido a crise de matéria prima), mas chegou agora nas lojas com grande esquema promocional. A RCA pensa em exportar o disco do Obina Shok para a Europa, EUA e também a África - paralelamente ao lançamento também de um pacote negro. Neste mês, estava sendo aguardado o grupo Kassav, que nasceu na Martinica, vive na França e tem raízes musicais na África - com apresentações no Recife, Rio e Salvador - além de São Paulo. Gilberto Gil, astutamente, não só participa de uma faixa no elepê do Obina, como apesar de sua agenda ocupadíssima (agora ele é secretário da Cultura em Salvador) aceitou a proposta de seu amigo Helinho Pimentel, diretor da FM Estação Primeira, de Curitiba, para gravar os textos de um programa chamado "Mãe África", que será, posteriormente, veiculado em outras emissoras do país (os textos estão sendo preparados por Paulo Leminski). O Disco do Obina - O Obina Shok já está sendo definido como o batedor nesta onda africana que começa a acontecer no Brasil. O conjunto é formado por Jean-Pierre Senghor, neto do poeta e libertador do Senegal, Leopold Senghor, tecladista, arranjador e letrista, 24 anos; Roger Onanga Kedyh, 26, guitarrista, baixista e também compositor e arranjador, é do Gabão, onde liderou o Black Gold, com 5 elepês veiculados em alguns países da África e mais França e Inglaterra. O terceiro estrangeiro do grupo é o baterista Winston Goun, 27 anos, do Suriname. Todos são filhos de diplomatas. O grupo é completado pelos brasileiros Henrique Hermeto (guitarrista-base), Maurício Lagos (baixo), Sérgio Galvão (sax-alto) e os percussionistas Sérgio Couto e Hélio Franco. Roger Kedyh, líder do grupo, diz: - "Estamos abrindo o Brasil para a África". O Obina - nome da deusa da dança em dialeto do Gabão - nunca se fechou em círculos folclóricos. Explica Kedyh que "o uso de instrumentos eletrônicos é uma forma de revolucionar o primitivismo". Assim como já observou Mário César Carvalho ("Folha de São Paulo", 09/12/86), o Obina Shok, seguindo o rastro de Manu Dibango, Fela Anikulapo Kuti e King Sunny Ade, alguns dos pops africanos que estão aparecendo na Europa e EUA - funde o tempero primitivo da África com bateria eletrônica e sintetizadores, usando uma alquimia desconcertante. Imprimem toques percussivos a qualquer tipo de instrumento. No elepê do Obina, duas participações especiais: Gilberto Gil em "Reggae Obina", "Vida" (nesta também Gal Costa) e "Africanear Brother Bound". Também bons instrumentistas - como Márcio Montarroyos, Serginho Trombone, Paulinho Trumpete e Repolho - valorizam este disco destinado a ser a ponta-de-lança de uma nova proposta musical, mas que também pode ser encarada como um modismo ou, simplesmente, uma jogada de marketing. Vamos ver como o público vai reagir. E, principalmente, a qualidade do que vem por aí.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Música
7
15/02/1987
Eu estava pesquisando sobre o Obina Shok e cai aqui ao acaso. Parabéns pela valorização da memória da imprensa musical. Uma grata surpresa ler um artigo publicado há tanto tempo.
Parabens pelo material postado, fico feliz em encontrar isso na internet, pena que o grupo nao deu certo, teve um tempo de vida meteorica, poderiam aproveitar e citar onde andam e o que faziram os integrantes depois do fim da banda.

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