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"Terra para Rose", o documentário do ano

Brasília Há quatro anos, quando "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, foi apresentado no I Festival Internacional de cinema, Televisão e Vídeo no Rio de Janeiro, a emoção não ficou apenas na tela, na qual um filme demorou 20 anos para ser concluído estendia-se mais do que apenas o cinema: provocava a própria reunião de uma família separada pelo golpe de 1º de abril de 1964. Dona Elizabeth Teixeira, viúva do líder camponês cuja morte era o motivo original do filme, no hall da sala Glauber Rocha do Hotel Nacional, era a presença viva, mostrando que o cinema tem aquela função social e política. "Cabra Marcado para Morrer" foi o vencedor da Gaivota de Ouro e, lançado algumas semanas depois, seria um grande sucesso. De certa forma, a mesma emoção foi sentida por quem assistiu, na quente tarde de terça-feira, 20, no salão vermelho do Hotel Nacional, a primeira exibição de "Terra para Rose", longa-metragem sobre o drama de milhares de famílias do Rio Grande do Sul, acampados na fazenda Anoni, durante meses, na luta pelo espaço para produzir e viver dignamente. Uma série de coincidências tornou a sessão mais emocionante - e também tensa. Por coincidência ou não, o latifundiário Bolívar Anoni, 57 anos, gaúcho de Não-Me-Toques, hospedou-se no Hotel Nacional 24 horas antes e aqui encontrou a cineasta Tetê Moraes, realizadora do filme e que inclusive lhe havia entrevistado, dentro dos depoimentos colhidos para o filme. Acompanhado de um primo, Primo Arena, há 20 anos radicado em Brasília e de seu advogado, Justino Vasconcelos, foi assistir a sessão - provocando, ao entrar, uma pequena confusão: fotógrafos e cinegrafistas, acendendo flashes, atrapalharam a projeção, mas documentando sua presença - vendo justamente um filme no qual ele é, indiretamente, o vilão da história. O ministro Jader Barbalho, da Reforma Agrária, também era aguardado para a sessão. Mas embora tivesse almoçado no Hotel Nacional, saiu antes do início da sessão, "devido a compromissos oficiais". Um de seus assessores, entretanto, ficou para assistir ao filme. Ao final da sessão, Bolívar Anoni, cercado de repórteres, procurava explicar sua posição como dono de 8 mil hectares entre os municípios de Sarandi e Ronda Nova, desapropriada pelo Governo Federal há 14 anos - mas cuja indenização até hoje não se completou. Invadida por 1.500 famílias de Sem-Terras, em outubro de 1985, a Fazenda Anoni tornou-se centro de um dos mais tensos problemas sociais, que, dois anos após, ainda não foi solucionado - assim como centenas de outros conflitos que se espalham pelo Brasil, com 12 milhões de sem terras na espera da Reforma Agrária. Tetê (Maria Teresa) Moraes, carioca, 40 anos, ex-jornalista ("Correio da Manhã", "Jornal do Brasil", "O Sol"), exilada política por 10 anos (período em que viveu no Chile, Washington, Paris, Roma e Lisboa), voltada aos problemas sociais-políticos, decidiu que a questão dos Sem-Terras na Fazenda Anoni deveria ser registrada. Conseguindo recursos técnicos e filme virgem, em companhia dos fotógrafos Walter Carvalho e Fernando Duarte (por coincidência, o mesmo profissional que, em 1964, iniciou as filmagens do núcleo original de "Cabra Marcado para Morrer", na Paraíba), Tetê acompanhou, em quatro diferentes etapas, e invasão da fazenda, a grande marcha dos sem-terras a Porto Alegre (500 km da fazenda), o acampamento improvisado na Assembléia Legislativa gaúcha, a longa espera de uma solução e o retorno a terra prometida - na qual, acabaram assentados menos de 300 das 1.500 famílias. Mais do que um simples documentário, Tetê soube recolher um material de maior expressão, com nada menos que 12 horas de filmagens - dos quais, trabalhando por 9 meses, montou um enxutíssimo longa de 85 minutos. Assumidamente com um olhar feminino, concentrou as entrevista, os depoimentos e a transmissão de todo o drama através das mulheres dos camponeses que buscam sua terra. Mulheres jovens e idosas, com seus filhos, cozinhando para seus maridos, falando sobre o sonho de possuir "apenas uma terra onde possam viver" e, principalmente, sem esmorecer, na luta pela terra em que possam viver. Uma das mulheres mais longamente focalizadas foi justamente Rose, que ali chegou há dois anos e pariu seu filho, Marcos, a 28 de outubro de 1985 - primeira criança a nascer no acampamento. Em 31 de março de 1987, num acidente de trânsito - quando um caminhão atropelou várias pessoas, matando três camponeses, Rose foi estraçalhada. Uma morte misteriosa, até hoje não esclarecida - e que, ao final, deixa uma indagação no ar. EMOÇÃO Com a colaboração de José Joffily Filho ("Urubus e Papagaios", roteirista de vários filmes), Tetê de Moraes desenvolveu um roteiro de montagem perfeito. Do imenso material rodado, dividiu seu filme em seis blocos: A Promessa, A Pressão, A Espera, O Confronto, O Sonho e A Trégua. Separando cada parte com uma imagem de uma carreta. "Terra para Rose" tem um desenvolvimento crescente: inicia fazendo um resumo histórico dos problemas da terra no Sul do Brasil para, em seguida mostrar os condicionantes que levaram milhões de camponeses procurarem um lugar para trabalhar. Com imagens de arquivo, especialmente vídeos de televisão, Tetê é implacável na crítica a Nova República: o presidente José Sarney e o ex-ministro Dante Oliveira, com seus blá-blás demagógicos em torno da solução para o problema são colocados como os grandes responsáveis por uma situação dramática, que, se documentada nas imagens de Tetê no caso da fazenda Anoni, pode ter reflexos em dezenas de outros casos. Seja no Centro-Oeste, onde a jornalista Helena Salem e Orlando Bodanski realizaram o contundente "A Igreja dos Oprimidos", seja no sudoeste do Paraná, no qual Berenice Mendes, também em 1985, registrou o drama dos sem-terras em "A Classe Roceira", 25 minutos, premiado no Festival de Fortaleza. O acampamento dos sem-terras, durante meses, defronte o Palácio Iguaçu - documentado pelos cineastas Solange Stracz e Aníbal Ponzio, em material até agora não montado - poderá até, talvez, ter a mesma força dramática daquelas imagens que Tetê Moraes foi buscar no Rio Grande do Sul. Só que seu filme, já concluído inscreve-se, agora, como um dos mais importantes documentários numa visão corajosa e necessária da questão mais crucial de nosso País - a nossa terra - tratada também, com tanta sinceridade por Hermano Penna, em "Fronteira das Almas" - prêmio especial do júri no Festival de Brasília. Na edição final do material rodado, com a colaboração de Manfredo Caldas (também realizador do documentário "Nau Catarineta", que teve o prêmio de melhor pesquisa no Festival de Brasília), Tetê conseguiu dar uma leitura didática, revolucionária e comunicativa. Em certos momentos, há toques eiseinsteneanos, quando a massa humana de sem-terras engrossados com apoio popular, chegou a mais de 60 mil pessoas percorre as estradas e chega a Porto Alegre. A emoção sobrepõe-se a simples apreciação crítica e é impossível ficar indiferente a força deste documentário, que só agora terá suas primeiras projeções. Desconhece-se qual será a reação da Censura ao examinar o filme - e uma proibição somente aumentará o interesse. Bolívar Anoni, diplomaticamente, após assistir ao filme - embora apareça de forma titubeante em suas declarações, ridículo em suas acusações de que "a invasão de terra é coisa de comunista" - declarou que não pretende tomar qualquer medida contra a cineasta. Mas uma declaração apenas formal, desconhecendo-se, realmente, seu propósito. Oficialmente, alegou que foi coincidência o fato de estar no Hotel Nacional, no dia da projeção. Explicou: - "Vim para ter uma reunião com o ministro Barbalho, em torno da questão da invasão de uma outra fazenda que possuo no município de Marmeleiro, no Paraná a "Perseverança", também invadida pelos sem-terras". Entre todos os filmes, apresentados no XX Festival do Cinema Brasileiro de Brasília, sem dúvida que "Terra para Rose" foi o de maior impacto social e político. Produção na qual sua realizadora investiu, com recursos próprios somados a ajudas esparsas de alguns movimentos religiosos independentes (CESI/CEDI), aproximadamente US$ 100 mil, Tetê não tem idéia de como será sua carreira em termos de exibição. - "A primeira é a ampliação para 35mm, facilitando sua exibição com esta bitola. Vamos tentar mostrá-lo ao maior público possível". Enquanto Hermano Penna, com seu "Fronteira das Almas" (já visto em Curitiba, durante a I Mostra do Cinema Latino-Americano) pensa em fazer o lançamento comercial a partir do Paraná, "pelas próprias condições políticas do Estado", Tetê Moraes volta-se para que "Terra para Rose" seja levado a exibições para a comunidade que dele participou. Na quinta-feira, 22, Hermano fez uma projeção de "Fronteiras das Almas", para os Constituintes, em Brasília. Tetê ainda não sabe quando poderá levar a cópia para projetar as famílias dos sem-terras, no Rio Grande do Sul, mas pretende que isto possa acontecer "o mais rapidamente possível". Além de ter tido a alegria de receber os principais prêmios na categoria 16mm - melhor filme (Cz$ 500 mil), direção (Cz$ 300), e fotografia (Cz$ 100 mil), emocionou-se por saber que a comissão outorgou Cz$ 200 mil, como "prêmio especial para comunidade dos Sem Terras". Afinal, sem eles, não teria havido este filme sério, atualíssimo - que com os fatos que aconteceram agora, neste Brasil de tantas contradições - chega como um poderoso grito de alerta aos homens que podem (e devem) resolver de fato os problemas de milhões de brasileiros que desejam apenas um pedaço de terra para viver e produzir. LEGENDA FOTO - O grande momento político-social do Festival de Brasília: "Terra para Rose" um documentário sobre os sem-terras, focalizando especialmente mulheres como Rose, e seu filho, Marcos - primeira criança que nasceu no acampamento da fazenda Anoni. Rose morreu - ou foi assassinada? - num misterioso acidente de trânsito em março deste ano.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
3
25/10/1987

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